1ª EXPERIÊNCIA COM A MEDITAÇÃO

1ª EXPERIÊNCIA COM A MEDITAÇÃO

1ª EXPERIÊNCIA COM A MEDITAÇÃO

A seguir, a jornalista Marília Di Cesare conta como foi sua primeira experiência com a meditação: um retiro de 10 dias de silêncio completo, em um sítio no Rio de Janeiro. Acompanhe!

 

Texto • Marília Di Cesare / Ilustração • Fabrício Alencar
 

Sempre me interessei por meditação. Li e conversei a respeito muitas vezes e, por isso,  parecia simples definir a prática: um estado de consciência que anula a mente. Apesar do meu interesse, nunca tinha tentado meditar até que ouvi falar sobre o curso de dez dias de meditação vipassana, a técnica ensinada pelo próprio Buda há mais de 2.500 anos.

A mulher que me falou sobre a prática viajava com o marido e a filha de seis meses. O bebê parecia um ser iluminado, muito amável e fácil de lidar. Estive com eles por duas semanas e, afinal, perguntei à mãe: “O que você fez durante a gravidez para ter um bebê assim?” Ela respondeu: “Mais de uma hora de meditação por dia.”

Assim que tive férias, fui para o Rio de Janeiro fazer o curso. O sítio onde ele é ministrado fica na serra carioca, com vista para uma enorme montanha. O silêncio é absoluto e deve ser mantido: de acordo com o código de conduta, não se pode falar com ninguém durante os dez dias de retiro, exceto com o professor, em horários destinados a perguntas.

Tudo é pensado para que nada distraia a atenção dos cerca de 50 participantes: não podemos levar livros, música ou bloco de anotações, homens e mulheres têm dormitórios e refeitórios separados e a dieta é estritamente vegetariana.

Os horários de meditação, refeições e descanso são marcados por um gongo que começa despertando a todos às quatro horas da manhã. A rotina é dura: são dez horas diárias de meditação.

O curso é dado pelo mestre indiano S. N. Goenka, mestre e líder mundial da linha vipassana, em fitas de áudio e vídeo. Durante os três primeiros dias, nosso exercício consistia somente em observar a respiração e a sensação causada nas narinas pelo ar que entra e sai. Parece fácil, mas não é. Tente se concentrar por apenas cinco minutos e verá que nossa mente pode ir a qualquer lugar com mais facilidade do que permanecer atenta à respiração. Eu mesma não consegui me concentrar por minutos consecutivos e isso me deixou bastante frustrada.

No quarto dia aprendemos a técnica vipassana de fato. Para isso, pediram que voltássemos nossa atenção às sensações por todo o corpo. Isso me irritou profundamente: eu mal conseguia sentir a pequena área abaixo das narinas, quanto menos o alto da cabeça! Às vezes, abandonava totalmente o exercício para observar como minha mente ia de um pensamento a outro, sem o menor controle. Mesmo enquanto estava atenta às sensações, uma parte de minha mente seguia em suas viagens.

Observe isso você mesmo. Agora, enquanto lê esse texto, sua mente não deixa de fazer associações. Você pode estar concentrado no que está lendo, mas não pára de pensar em outras coisas.

Nos últimos dias do curso, a atenção às sensações deve seguir um fluxo livre dos pés à cabeça e também dentro do corpo. Para mim, isso não dava resultado, então preferi continuar com o exercício de observar a respiração.
Não consegui praticar o vipassana durante o curso. Fiquei frustrada com isso, mas gostei da experiência, pois pude conhecer mais sobre mim mesma e ver como se dá o relacionamento de um grupo sem palavras. De alguma forma, pude conhecer minhas companheiras. Muitas vezes podia ver nelas tristeza, alegria e, em algumas, a certeza de que estavam evoluindo na técnica.

No oitavo dia, tentei abandonar o retiro, mas falei com a professora, e ela me convenceu a terminar o que tinha começado.

O desejo de não atrapalhar os outros pesou muito na minha decisão de ficar. Tantas foram as vezes que a organização avisou que para participar era preciso se comprometer a concluir os dez dias, que eu já podia prever o quanto uma ausência atrapalharia a concentração dos outros.

No último dia, afinal, gostei muito de conversar com os colegas e ouvir suas experiências. A maioria conseguiu sentir e observar as sensações pelo corpo, pelo menos uma vez. As descrições eram curiosas: cócegas, dor, coceira, vibração, toda sorte de impressões nas mais variadas partes do corpo, como a orelha ou os joelhos.
Já a minha experiência é um exemplo de como nossa mente pode desequilibrar nossa serenidade: ficou claro que eu não conseguia meditar porque não me desligava das preocupações. Mas, embora não tenha praticado o vipassana inteiramente, aprendi muito com o silêncio e com a mensagem de aceitar sempre a realidade como ela é.

Também aprendi a viver essa realidade em sua plenitude. Como nos ensina o mestre Goenka, “a mente está sempre no passado ou no futuro, por isso ela não sabe a arte de viver”. Você está lendo isso agora, mas será que consegue experimentar com plenitude o presente?

Fonte: Triada.com.br