CABALA: UMA FILOSOFIA PARA TODOS

CABALA: UMA FILOSOFIA PARA TODOS

CABALA: UMA FILOSOFIA PARA TODOS

O lado oculto e místico da tradição judaica não está mais restrito a poucos iniciados: a cabala agora é acessível para qualquer um que queira cruzar a barreira entre os mundos físico e espiritual e, com isso, conhecer mais de si mesmo e de Deus. Saiba como

 

Texto • Carine Portela



 

Chegará o dia em que todos os seres humanos saberão o que é cabala. Isso é o que diz a profecia de antigos cabalistas, os mesmos que previram que no ano de 1995 (ou 5755, de acordo com o calendário judaico) a humanidade estaria mais receptiva e preparada para compreender essa doutrina. Neste momento, a sabedoria oculta sairia do ostracismo, abrindo-se para qualquer pessoa com disposição a estudá-la – já que, por muitos séculos, somente judeus homens com mais de 40 anos tinham acesso aos textos sagrados da tradição.

Nossa geração cumpre essa profecia, afinal, a filosofia cabalística é cada vez mais divulgada no mundo todo, seja por virar moda entre celebridades ou despertar o interesse de curiosos à procura de algo que esclareça dúvidas existenciais. Mas, para os estudiosos da sabedoria, o verdadeiro motivo do crescente interesse de pessoas das mais diferentes religiões e culturas pela cabala é a humanidade ter chegado a um nível de egoísmo tão elevado que o desejo pela luz e pelo reencontro com Deus se transformou em uma necessidade cada dia mais intensa.

Mas, mesmo em evidência, a cabala não perdeu sua aura misteriosa. Poucos sabem que sua sabedoria não pode ser definida simplesmente como a corrente mística do judaísmo. “É importante lembrar que o judaísmo não é a origem da cabala, e sim o contrário”, explica Luiz Oliveira, um dos coordenadores do grupo de estudos cabalísticos Bnei Baruch no Brasil. Isso porque a cabala, em essência, é o contato entre Criador e criatura. Mais especificamente, é um sistema de adequação do ser humano para que ele possa receber aquilo que o Criador tem para doar, ou seja, o bem absoluto – a palavra cabala vem de “kibel”, que em hebraico quer dizer “recepção”. Há quem afirme que esse sistema é nada menos do que a fonte infinita de sabedoria cósmica, a chave para desvendar os mais profundos mistérios do universo e de toda a existência.

Se a essência da cabala não está associada ao judaísmo, o mesmo não se pode dizer das mensagens ocultas que ensinam os métodos para adquirir esse conhecimento. Quando Deus ditou a Torá (o grande livro do judaísmo, correspondente aos cinco primeiros livros da Bíblia) a Moisés no Monte Sinai, estabeleceu quatro níveis de entendimento para o texto sagrado: peshat, o significado literal, o modo simples da mensagem; remez, que inclui alusões e insinuações alegóricas; drash, a interpretação metafórica mais aprofundada; e sod, o nível mais profundo, oculto e simbólico, em que se inclui a cabala.

 

Por dentro da tradição


 

A obra de maior importância para os cabalistas é o Zohar, o Livro do Esplendor, escrito há quase dois mil anos. Trata-se de uma interpretação do manuscrito cabalístico mais antigo, o Sêfer Ietsirá ou Livro da Formação, cuja autoria é atribuída ao patriarca Abraão. Segundo o Zohar, o universo é regido por leis espirituais precisas de ação e reação, causa e efeito.

O comentário mais famoso sobre o Zohar foi escrito no século XX pelo Rabbi Yehuda Ashlag e é chamado de Sulam. Nele, é descrito um método prático, passo a passo, para entender essas leis e alcançar o grande objetivo de todas as almas: atingir um grau de espiritualização em que não existam mais barreiras entre o mundo da matéria e o mundo do espírito. Assim, a criatura seria, novamente, aderida ao Criador. Essa posição é chamada de “o fim da correção”, o mais alto nível de completude.

Todos esses textos – apesar de já poderem ser lidos por qualquer pessoa que tenha interesse sobre temas como a criação do universo, a vida após a morte e a evolução espiritual –, em geral, não são de fácil compreensão. O motivo é simples: tratam de realidades espirituais totalmente desconhecidas pelo homem comum, que não podem ser vistas, ouvidas nem captadas por nenhum dos cinco sentidos. São escritos, portanto, na chamada “linguagem dos ramos”, que utiliza conceitos que a nossa mente pode entender para se referir às raízes de tudo o que existe, que estão nos planos espirituais.

Para apreendê-los, é preciso um esforço que transcenda o mundo físico, o desenvolvimento de um sexto sentido que só pode ser criado a partir de uma forte intenção em direção a Deus. Mas os cabalistas garantem que esse sexto sentido pode ser desenvolvido por qualquer um, o que depende apenas de esforço pessoal, do desejo de se corrigir espiritualmente para poder receber a luz divina.

Além da cabala teórica, que envolve apenas o estudo e a meditação, há o que alguns chamam de cabala mágica. Essa vertente, vista com certa reserva por muitos estudiosos da filosofia (entre eles judeus ortodoxos), acredita na prática da canalização de energia para a realização de efeitos sobrenaturais e a interferência nos acontecimentos do mundo físico. Cabalistas respeitados, no entanto, deixam clara a mensagem: a sabedoria da cabala não pode nem deve ser usada para alcançar benefícios pessoais, materiais e egoístas. Seu propósito deve ser somente o de descobrir os caminhos para nos reencontrarmos com Ein Sof, a Fonte Infinita, de onde viemos e para onde vamos.