CELEBRAÇÃO BUDISTA À JAPONESA

CELEBRAÇÃO BUDISTA À JAPONESA

Em um templo de São Paulo, a comunidade budista Terra Pura comemora o nascimento de seu fundador Shinran Shonin. A festa é um convite à reflexão. Participe!

 

Texto • Denise Moraes
 

Nascido em 21 de maio de 1171, o japonês Shinran Shonin fez história dentro do budismo. Foi ele quem fundou a escola budista Terra Pura (Jodo Shinshu), a comunidade que reúne hoje o maior número de adeptos no Japão.

Enquanto vivo, Shonin recusava o título de inventor de qualquer coisa. Segundo ele, sua função foi apenas difundir os ensinamentos de Buda. “Ele realmente não criou a doutrina budista, pois esta já era pregada pelo Buda Sakyamuni, o Buda histórico. No entanto, Shonin criou uma interpretação nova e particular desta doutrina”, explica o Reverendo Shaku Shogyo, da comunidade budista sul-americana Honpa Hongwanji, com sede localizada na zona sul da capital paulista.

O fato é que a interpretação de Shonin foi tão original que acabou dando origem a uma escola própria dentro do budismo. “Ele pregou os ensinamentos de Buda de uma forma que ninguém havia sequer cogitado fazer antes”, diz o Reverendo Shogyo.

A Terra Pura chegou ao Brasil há pouco mais de 40 anos. Sua origem é chinesa, mas foram os japoneses que a trouxeram para cá. Aqui, assim como na terra do sol nascente, todos os anos, comemora-se o Gotan-e, o aniversário de Shinran Shonin. A festa é uma contemplação sobre a vida de Shinran Shonin e seus ensinamentos. Nós estivemos lá e vale a pena conhecer. 
 

Quem foi ele

Shinran Shonin (1171-1262) foi um monge que pregava para os analfabetos do Japão e para pessoas que não tinham acesso aos templos, os quais só podiam ser frequentados por samurais e senhores feudais. Naquela época, era alto o índice de analfabetismo no Japão, sobretudo entre as camadas mais pobres da sociedade, formada, em sua maioria, por agricultores. Shonin conversava com qualquer um, a qualquer hora, em qualquer lugar, tratando homens humildes e ignorantes com o mesmo respeito que dispensava aos nobres.
 

No início da cerimônia do Gotan-e, monges entoam mantras. Em seguida, os fiéis dirigem-se ao altar ofertando velas, flores e incensos
 

Gratidão aos antepassados

O altar dourado com arquitetura japonesa recebe seis monges, três de cada lado. O reverendo fica no meio, de costas para os fiéis, e de frente para a imagem do Buda Amida, considerado pelos praticantes da Terra Pura o Buda da luz infinita e da vida eterna (Namo Amida Butsu). Todos começam a entoar mantras, os sons sagrados dos budistas.

Os praticantes trazem flores e velas. Pouco a pouco, levantam de seus lugares e, em fila, queimam incensos no incensório colocado à frente do altar. Calmamente, a cerimônia prossegue até que todos os presentes tenham passado pelo incensório. Em seguida, os monges e o reverendo se retiram do altar, enquanto uma canção é entoada com vigor.

O reverendo, cujo nome é Watanabe, de frente para os bancos em que estão sentados os praticantes, começa o seu sermão em japonês. Algumas pessoas riem bastante, todas estão bastante atentas.

Terminado o sermão, um monge se levanta e resume, em português, o tema abordado pelo reverendo. Em síntese, ele falava sobre como somos interligados. Viemos ao mundo graças aos nossos pais que, por sua vez, têm seus pais, formando uma cadeia de pessoas e gerações, uma interligada à outra. Nessa cadeia, se faltasse apenas uma pessoa, tudo poderia ser diferente. Portanto, a interligação gera um tipo de gratidão a nossos antepassados: só estamos vivos porque alguém se dedicou a nós, cuidou de nós, nos deu a vida.

Paralelamente, a escola da Terra Pura só existe porque Shinran Shonin existiu e porque algumas pessoas mantiveram vivos sua memória e seus ensinamentos.
 

Por fim, o reverendo faz um sermão, convidando todos os presentes a refletirem sobre os ensinamentos de Buda
 

Templos vazios

Para uma cerimônia daquela importância, o templo estava relativamente vazio. O fato é que o budismo japonês, diferentemente do tibetano, demorou para se “ocidentalizar”. Até pouco tempo, não havia tradução para os sermões, o que dificultava a presença de brasileiros nos templos. Além disso, as novas gerações não têm o hábito de frequentá-los e, à medida que as pessoas mais velhas vão morrendo, eles vão se esvaziando. Vários, inclusive, já fecharam suas portas.

Ainda que tardiamente, a matriz do Japão vem tentado contornar o problema. Com tal intuito, enviaram para cá o reverendo Watanabe. Ao contrário do bispo anterior, um senhor sério e com cara de bravo, o reverendo atual é simpático e conta histórias que divertem as pessoas. É uma tentativa de manter vivo no Brasil todo o sábio legado de Shinran Shonin. 
 

O simbolismo das oferendas

Há três eventos de suma importância para a comunidade budista Terra Pura: o Hanamatsuri, o “Festival das Flores”, que é o aniversário do Buda Sakyamuni, o Hoonko, dia do aniversário da morte de Shinran Shonin, e o Gotan-e, aniversário de Shinran Shonin.

No Japão, quando acontece o Hamatsuri, há um feriado de cinco dias, para os praticantes orarem e comemorarem a data. Grosso modo, o Hamatsuri do budismo é comparável, em importância, ao Natal do cristianismo.

No Hoonko, assim como no Hamastsuri, o praticante passa uma semana sem comer carne. Em ambos, há oferta de flores, velas e incenso. “A flor simboliza a impermanência, a sensação de que tudo muda. Hoje a flor é bela, mas amanhã ela estará murcha. No entanto, deixa sementes que germinarão, gerando novas flores”, explica Maurício Ghigonetto, webmaster do site Dharmanet e freqüentador da Terra Pura. Quanto à vela, é símbolo da luz do ensinamento, que torna nossa mente mais clara, enquanto o incenso serve para purificar o ar. 
 

O Buda Amida (acima) é o Buda da Luz e da Vida Infinitas, o símbolo da compaixão e sabedoria absolutos. Shinran Shonin destacou que a fé no Buda Amida assegurava a iluminação
 

Sem repressão

Uma característica da Escola da Terra Pura que agrada aos ocidentais é a sua não-rigidez. Seus monges não fazem voto de castidade, e o praticante pode cultivar hábitos geralmente condenados por outras escolas. Para se ter uma ideia, é permitido fumar no templo e, a não ser em ocasiões especiais, os praticantes não são obrigados a seguir nenhuma dieta alimentar. 

Fonte: Triada.com.br