CHICO XAVIER: O INÍCIO DE TUDO

CHICO XAVIER: O INÍCIO DE TUDO

CHICO XAVIER: O INÍCIO DE TUDO

Quando Chico Xavier começou a sentir os efeitos de sua mediunidade, causou estranhamento nos que estavam ao seu redor. Acompanhe uma passagem da infância do médium, contada no livro "As vidas de Chico Xavier"

 

Texto • Redação

Desde criança, Francisco Cândido Xavier, um garoto pobre do interior de Minas Gerais, demonstrava ter um dom especial. No início, ninguém entendia direito o que suas visões significavam, mas, aos poucos, elas começaram a fazer sentido. Psicografando cartas, poemas e romances, Chico Xavier encheu o país de esperança e difundiu mensagens de caridade e fé. Quando morreu, aos 92 anos, havia se tornado um verdadeiro ídolo popular para o Brasil. Sua vida, repleta de episódios intrigantes, é contada em detalhes no livro As vidas de Chico Xavier, escrito pelo jornalista Marcel Souto Maior. A seguir, você confere um trecho da obra, que conta uma passagem da infância de Chico, quando as manifestações espirituais ainda não estavam claras para ele ou sua família. Acompanhe e saiba mais sobre a vida deste importante divulgador do espiritismo.
 

O menino mal-assombrado

O pai, João Cândido Xavier, balançava a cabeça e resmungava.

– É louco.

A madrinha, Rita de Cássia, reagia às alucinações do menino com golpes de vara de marmelo. Entre uma surra e outra, enterrava garfos na barriga do afilhado e berrava.

– Este moleque tem o diabo no corpo.

Nem o padre Sebastião Scarzello conseguiu fazer de Chico Xavier um garoto “normal”.

Após as confissões, preces e penitências, Chico tagarelava com a mãe já morta, via hóstias cintilantes na comunhão, escrevia na sala de aula textos ditados por seres invisíveis e tornava-se, assim, o assunto mais exótico da cidade.

Para espantar o diabo e pagar os pecados, o garoto seguia à risca as receitas paroquiais. Chegou a desfilar em procissão com uma pedra de quinze quilos na cabeça e repetir mil vezes seguidas a ave-maria. Rezava e contava. Não foi fácil. Um espírito desocupado fazia caras e bocas para atrapalhar seus cálculos. Na Igreja, assombrações flutuavam sobre os bancos e beijavam os santos.

Chico divulgava estas e outras histórias do outro mundo para os adultos. Resultado: mais surras e mais risco de ser transferido de Pedro Leopoldo para Barbacena, a capital dos hospícios. João Cândido estudava com carinho a hipótese de internar o filho. Uma ideia antiga.

A Primeira Guerra Mundial começava a assombrar o mundo, e Chico já estava às voltas com fantasmas. Uma noite, seu pai conversava com uma mulher, Maria João de Deus, sobre o aborto sofrido por uma vizinha, e desancava a moça. O filho interrompeu o julgamento e, do alto de seus quatro anos, proferiu a sentença:

– O senhor está desinformado sobre o assunto. O que houve foi um problema de nidação inadequada do ovo, de modo que a criança adquiriu posição ectópica.

Naquela casa pobre de Pedro Leopoldo, a frase soava tão fora de propósito quanto a notícia de que, na longínqua Europa, a Alemanha acabava de declarar guerra à Rússia.

João Cândido arregalou os olhos e balbuciou:

– O que é nidação? O que é ectópica?

Chico não sabia. Tinha repetido palavras sopradas por uma voz.

Os amigos da família Xavier, aqueles que desconheciam o discurso feito pelo menino aos quatro anos, arriscavam uma explicação para as alucinações de Chico: a morte da mãe, quando ele tinha cinco anos. Maria João de Deus foi embora cedo demais e, ao se despedir, deixou em casa um garoto ao mesmo tempo magoado e impressionado.

Pouco antes de morrer, ela pediu ao marido que distribuísse os nove filhos pelas casas de amigos e parentes. Só assim João Cândido, vendedor de bilhetes de loteria, conseguiria viajar pelas cidades vizinhas em busca de dinheiro.

No pé da cama onde a mãe agonizava, atormentada pela crise de angina, Chico cobrou:

– Por que a senhora está dando seus filhos para os outros? Não quer mais a gente, é isso?

Maria explicou que iria para o hospital e garantiu com voz firme:

– Se alguém falar que eu morri, é mentira. Não acredite. Vou ficar quieta, dormindo. E voltarei.

Chico acreditou. No dia seguinte, a mãe morreu e João Cândido entregou à madrinha, Rita de Cássia, um menino com ideias estranhas...

Fonte: Triada.com.br