ENTREVISTA: PROFESSOR HERMÓGENES

ENTREVISTA: PROFESSOR HERMÓGENES

ENTREVISTA: PROFESSOR HERMÓGENES

Beirando os 90 anos, ele diz que se sente mais jovem do que quando tinha 35. A fórmula? Yoga. Não é à toa que Professor Hermógenes é um dos mais importantes yogues do Brasil. Acompanhe o bate-papo a seguir e entenda por quê

 

Texto • Sandra Cruz
 

É impossível falar de yoga no Brasil sem mencionar o nome de José Hermógenes de Andrade Filho. Escritor, poeta, filósofo e terapeuta, professor Hermógenes, como é conhecido, é um dos mais respeitados nomes do país quanto o assunto é terapia holística. Aos 89 anos, com um vigor invejável, o potiguar de Natal é um exemplo de humildade e equilíbrio. Tudo resultado de muitos anos de estudos e dedicação ao hatha yoga, que, segundo ele, é o grande ABC da filosofia yogue.

Quem o vê hoje, cheio de energia, dando aulas em sua academia no Rio de Janeiro, não imagina que ele tomou contato com a prática milenar no momento mais difícil de sua vida. Aos 40 anos, sofria de tuberculose, numa época em que a doença amedrontava tanto quanto a Aids em nossos dias. Depois de muitos tratamentos, descobriu o poder transformador do yoga. A partir dali, sua missão passou a ser divulgar pelo país e pelo mundo os benefícios desta técnica milenar.

Com duas filhas, seis netos e quatro bisnetos, professor Hermógenes recebeu prêmios dentro e fora do Brasil – entre eles, o título de Cidadão da Paz do Rio de Janeiro, em 1988 –, por seu papel na promoção do bem-estar e da saúde entre os brasileiros. Autodidata, ele foi o primeiro a escrever sobre o tema em português. Hoje, soma mais de 30 livros publicados, entre eles dois campeões de vendas:Autoperfeição com Hatha Yoga – que já teve mais de quarenta reedições – e Yoga para nervosos. Sábio e pioneiro, professor Hermógenes compartilhou um pouco de sua experiência conosco. Confira a seguir!

 


 

Como o senhor descobriu o yoga?

Eu vivi muito tempo o yoga sem saber o que era. Entrei pela parte espiritual, a partir da meditação. Aos 40 anos, eu estava tuberculoso e passava por um doloroso tratamento, que me obrigou a ficar muito tempo em repouso. A doença me deu oportunidade de estudar durante o tempo em que fiquei imóvel. Foi quando, por meio de leituras, meditações e orações, conheci outra realidade. Neste período, entrei em contato com o yoga mais sublime e poderoso, o encontro com Deus. Sempre busquei Deus dentro de mim. Mais tarde, descobri um livro francês que mostrava o poder terapêutico do yoga e comecei a praticar os asanas, escondido dos médicos.
 

Por que escondido?

Mesmo depois de me dar alta, os médicos não aprovariam a idéia de eu meter a fazer estripulias, então decidi não contar a eles. Tomei como desafio e comecei a realizar as posturas diariamente. No começo foi muito difícil, mas depois me senti restaurado, e não só no corpo. Hoje raramente adoeço, nem me lembro da última vez em que fiquei doente.
 

O que o senhor diria para quem está começando a praticar o yoga?

Sempre faço questão de lembrar aos meus alunos e leitores que o yoga surgiu para o homem ser feliz e se libertar da condição inferior de padecimento. Não é simplesmente para divertir os jovens e torná-los fortes e bonitos. Há quem busque o yoga apenas pelo lado exterior – estes vão se dedicar apenas aos contorcionismos. Outras pessoas buscam o yoga da compaixão, aquele que ajuda muitas pessoas a sair do sofrimento. Meu conselho é: estude para descobrir o que é verdadeiramente o yoga. Indico meu livro “O que é yoga” para não levarem gato por lebre.
 

Então, como deve ser feita a escolha de um professor?

Jesus deu uma dica, falando dos falsos profetas: “conhecereis pelos frutos”. É importante saber o que a pessoa tem produzido e se também se mostra preocupada em estudar a filosofia yogue. Além disso, é essencial procurar perceber se o professor “vive o yoga” ou “vende o yoga”.

 O que o senhor pode dizer às pessoas que só buscam o yoga pelos benefícios físicos?

Costumo dizer que é como comer a casca da banana e jogar o miolo fora. Duas palavras definem corpo em sânscrito: teha, que significa aquilo que vai ser queimado, e sharira, aquilo que vai se decompor. A sabedoria do verdadeiro yoga nos salva da ilusão e nos desapega do corpo. Mas isso não significa que devemos descuidar dele. 
 

Quais são, na sua opinião, os principais mestres do yoga?

Jesus Cristo, São Paulo, São Francisco, Madre Teresa de Calcutá e Chico Xavier. E olha que eles nunca realizaram asanas. Mesmo assim, praticaram o yoga mais importante: o divino. A meditação é essencial para a prática do yoga, pois nos abre o caminho estreito para nos religar com Deus.
 

Mas os asanas também são importantes, não?

Eu dou valor aos asanas, principalmente como um meio para transcender. Se tivesse que eleger um, seria a posição de lótus, que é universal. Para mim, as principais posturas físicas são as de meditação, que nos leva ao yoga mais profundo e, ao mesmo tempo, mais sutil e sublime. Essas posturas que tranquilizam o corpo e o espírito. 
 

O senhor tem algum discípulo?

Procuro dividir meus conhecimentos com os leitores. Não tenho discípulos, tenho amigos. Quem tem discípulos são mestres. Eu não me considero um, porque sei a responsabilidade deles, a dimensão em pureza e santidade. Eu sou apenas um bem-intencionado.
 

Por fim, qual a verdadeira mensagem do yoga?

O objetivo do yoga é união. O yoga nos funde à nossa essência, que é divina. E isso só é possível com a superação do ego, com a renúncia, a humildade e o amor. É isto o que o yoga ensina.

Fonte: Triada.com.br