FILOSOFIA E TRADIÇÃO DOS SAMURAIS

FILOSOFIA E TRADIÇÃO DOS SAMURAIS

Conheça a fascinante e complexa filosofia dos antigos samurais japoneses e entenda como um estilo de vida pôde conciliar violência física com ensinamentos budistas de paz

Texto • Carine Portela

Fonte: Triada.com.br

 

Guerreiros do antigo Japão feudal, os samurais existiram somente do século 10 ao 19, mas ainda hoje despertam curiosidade, interesse e admiração, principalmente no mundo ocidental, tão carente de tradições e sempre sedento por grandes heróis.

A história e a filosofia dos bushi, como são conhecidos no Japão, têm diversos aspectos curiosos e peculiares. Um deles é a aparente contradição de um meio de vida que, apesar de ser baseado em uma doutrina pacífica, tem como principal característica os duelos de espada. Para entender como esses guerreiros legendários – sobretudo por sua honra e lealdade – pautavam suas vidas em crenças e atos extremamente opostos, é preciso conhecer o Bushido, uma espécie de código de conduta não escrito (passado de pai para filho ao longo da História) que orientava todos os passos desses bravos homens.

Caminho a ser trilhado

Literalmente, Bushido significa o “caminho do guerreiro”. Seguir essa orientação significava dar ênfase à fidelidade, ao autosacrifício, à justiça, aos modos refinados, à humildade e, acima de tudo, à dignidade no momento da morte. Foram três as doutrinas que influenciaram profundamente o código dos samurais: o confucionismo, o xintoísmo e o zen-budismo.

Do confucionismo, o Bushido herdou muitos princípios éticos e a importância dada aos relacionamentos humanos, ao meio-ambiente e à família. Os samurais honrados deveriam seguir sempre a essência dos cinco relacionamentos morais listados por Confúcio: entre senhor e servo, pai e filho, marido e mulher, irmão mais velho e mais novo e entre amigos. Ao contrário de quem se orientava pelo confucionismo sem restrições, os seguidores do Bushido não acreditavam que os homens deveriam sentar-se para escrever poemas e ler livros todos os dias. Segundo eles, estes eram apenas portais, mas não a morada do conhecimento universal.

Do xintoísmo vieram a lealdade e o patriotismo. Também vem dessa doutrina a idéia de adoração aos ancestrais, a qual fazia da família imperial o centro de toda a nação e conferia ao imperador uma referência divina. Além disso, o Bushido emprestou do xintoísmo o pensamento de que a Terra não existia apenas para atender às necessidades de cada um, mas sim porque era “residência sagrada dos deuses e dos espíritos dos antepassados” e, por isso, deveria ser adorada e protegida.

Quanto às heranças do zen-budismo, o Bushido recebeu, principalmente, a postura para se relacionar com o perigo. O samurai tinha braveza e coragem e não temia perder a vida na batalha exatamente porque acreditava que haveria reencarnação e outras passagens na Terra. Para o samurai, morrer em combate não significava o fim de tudo.

Essa forma de encarar esse fato era imprescindível para que o bushi aceitasse e cumprisse certas regras e condutas. Um samurai, em caso de vida ou morte, deveria sempre escolher a última, ou seja, o verdadeiro samurai deveria estar preparado para, se preciso fosse, optar pela morte sem hesitar em qualquer situação e a qualquer momento. É claro que ela não poderia ser inútil, sem razão, mas, se ele morresse em defesa de sua honra, teria cumprido sem falhas sua missão na vida.

O budismo não esteve presente na vida desses guerreiros milenares apenas porque foi um dos pilares do Bushido. Para muitos estudiosos, a religião que foi levada ao Japão depois de ser introduzida na China por um monge seguidor dos ensinamentos de Buda, chamado Bodhidharma, sempre fez parte da essência dos japoneses.

O zen, além de significar “disposição para a espiritualidade”, sintetiza a idéia de que nada é permanente nem individual. Para nós, ocidentais, que vivemos em uma cultura bastante individualista, fica difícil entender o verdadeiro sentido desse conceito. Já para os orientais, habituados a ouvir idéias semelhantes, a situação é diferente.

Os adeptos garantem que, mais que uma religião ou seita, o zen é uma filosofia de vida que, desde a época em que a classe samurai ascendeu ao poder, no século 12, até hoje, vem influenciando muito a vida do povo japonês.

Os samurais praticavam, ou melhor, experimentavam o zen-budismo por meio do zazen, a meditação em posição sentada que tem como objetivo a busca por autoconhecimento e pela eliminação dos pensamentos negativos que nos impedem de enxergar a verdade em seu estado puro. O “zen do guerreiro”, como era chamado esse lado espiritual do samurai, era uma ferramenta para o controle do medo e de outras instabilidades emocionais que provocavam erros na hora do combate.

Os samurais também estudavam os koans, frases enigmáticas do zen-budismo que, aparentemente, não têm sentido, mas  carregam um significado profundo. Koans famosos, como “qual é o som de uma única mão que bate palmas?” e “como se pratica a esgrima sem espada?” eram bastante utilizados. Para desvendá-los, o bushi era instruído a colocar de lado o pensamento lógico e deixar fluir a intuição. O samurai que fazia do zen um estilo de vida possuía mais autocontrole, disciplina e simplicidade no modo de viver.

Todo esse exercício espiritual, em muitos momentos, entrava em conflito com a essência guerreira e até mesmo assassina do samurai.

Um aspecto conflitante era, por exemplo, a questão do suicídio – necessário, segundo o Bushido, em determinadas ocasiões. O samurai seguia um ritual chamado de harakiri ou seppuku e consistia em introduzir sua espada curta no lado esquerdo do abdômen, cortando a região central do corpo, e terminar por puxar a lâmina para cima. Era importante que o corte fosse feito na região correta porque, como acreditava-se que o centro do corpo era também o centro das emoções e do espírito, só daquela maneira o guerreiro estaria, literalmente, cortando sua alma.

Algumas das circunstâncias que poderiam tornar o harakiri necessário eram a perda da honra do guerreiro, em razão de alguma atitude indigna por parte dele mesmo ou de sua família; para evitar ser prisioneiro em campo de batalha, ou até mesmo como uma prova de lealdade, no momento do declínio de seu senhor feudal.

Assim como o assassinato, o suicídio não é um ato aconselhado pelo budismo. Segundo a religião, quando se suicida, a pessoa além de carregar o karma negativo por ter interrompido sua vida, ela tem de carregar o karma de ter negado sua condição humana. Por isso, algumas correntes sustentam que os suicidas renascem em infernos de grandes sofrimentos por muitas vidas consecutivas. E isto não tem nada a ver com “punição”, já que o budismo não aprova nem desaprova diretamente nenhuma ação, é simplesmente a conseqüência desencadeada por um ato falho.

De acordo com alguns budistas, existem relatos históricos que revelam o pensamento de Buda perante o suicídio: “Não há nada de intrinsecamente errôneo em acabar com a própria vida, contanto que isso não seja feito com ódio, fúria ou medo.” Talvez, no caso dos samurais, que o faziam como o cumprimento de um dever  – tinham, inclusive, calma e tranqüilidade de espírito para escrever um poema no momento da morte –, o karma negativo não fosse criado. Mas todas essas visões são apenas especulações. Certo mesmo, de acordo com o budismo, é o fato de que não se foge de nada com o suicídio, já que “morrer para sempre” é um privilégio reservado aos que alcançam a qualidade de Buda, ou seja, a iluminação completa. 

O coração do guerreiro

Mais do que homens hábeis no manejo da espada, os samurais buscavam ser exemplos de homens perfeitos em todos os aspectos. Os seguidores do Bushido viam em virtudes como justiça, benevolência e amor qualidades supremas. Nesse contexto, o papel do zen-budismo foi fundamental. Era um instrumento para alcançar maturidade espiritual.

A espiritualidade dos guerreiros pode ser vista com perfeição na história de vida de Musashi, o maior samurai de todos os tempos. Quando jovem, apesar da incrível força e traquejo no uso da espada, ele era apenas um guerreiro selvagem e sanguinário. No entanto, enfrentando inúmeras lutas, situações de perigo e sempre buscando elevar seu espírito e melhorar como ser humano, ele adquiriu serenidade, temperança e outras qualidades que o levaram a ser o maior e mais sábio guerreiro de toda a história do Japão. Tal evolução só foi possível porque, em dado momento da vida, ele passou a se dedicar, com o mesmo afinco que destinava à esgrima, às finas artes e ao zen-budismo.

Embora não se saiba ao certo quais passagens da sua vida realmente aconteceram e quais são fruto da imaginação dos japoneses, conta-se que, certa vez, Musashi se viu em uma armadilha preparada pelo irmão de um bandoleiro que ele havia matado anos antes. Como já tinha o espírito bastante desperto, Musashi foi capaz de compreender a situação não apenas a tempo de salvar sua vida, mas também a tempo de matar o inimigo. Para sua segurança, essa parecia ser a atitude mais acertada. Porém, o grande samurai ponderou: tirar a vida daquele homem, além de não fazer sentido, iria envolvê-lo em uma nova relação kármica com o filho do vingador que, naquela época, era apenas um bebê, mas que, anos depois, sairia pelo mundo para vingar a morte do pai. Ele preferiu ir embora e esperar que a vida livrasse seus caminhos de uma ameaça futura.

 

Musashi praticou o zen até o fim dos seus dias, passando até mesmo longas temporadas isolado em montanhas para meditar. Por tudo isso, foi considerado exemplo vivo do verdadeiro samurai. Um homem que viveu com a espada nas mãos, mas que manteve alma e corações limpos – pelo menos na visão daqueles que seguiam o caminho do guerreiro.