HINDUÍSMO: POR DENTRO DA FILOSOFIA

HINDUÍSMO: POR DENTRO DA FILOSOFIA

 

Sob a visão ocidental, o hinduísmo é uma religião um tanto estranha. Mas é só olhar com um pouco mais de atenção e logo vem o encanto: cheia de costumes intrigantes, a terceira religião mais praticada no mundo é uma caixa de surpresas

Texto • Amanda Nero

Fonte: Triada.com.br

 


 

Um deus com cabeça de elefante, uma sociedade dividida em castas, templos eróticos, divinização da vaca, seres que brotam de flores-de-lótus... Tudo isto faz parte da Sanâtana Dharma (sânscrito para hinduísmo), uma das religiões mais antigas e populares do mundo. Apesar de estar intensamente concentrada na Índia, hoje ela ocupa o terceiro lugar no ranking de religiões com mais adeptos ao redor do globo, ficando atrás apenas do cristianismo e do islamismo.

Baseado nos Vedas, escrituras cultuadas que (especula-se) teriam sido elaboradas por volta de 2500 a.C., o hinduísmo engloba um número imenso de seres sagrados e criaturas mitológicas, além de rituais de fé que parecem muito curiosos quando vistos sob o ponto de vista ocidental. E isso é apenas o começo. Descubra, a seguir, um pouco mais sobre este tão rico e fascinante sistema religioso, seus princípios, costumes, mitos e dedicados seguidores. 

O princípio da vida cíclica

Os hindus acreditam que a vida na Terra acontece em ciclos – processo conhecido como samsara (conceito que também existe no budismo e no jainismo). As reencarnações, por sua vez, são guiadas pelo karma (conduta) de cada um. Ou seja, se você viveu dignamente e cumpriu com o dharma (códigos morais de comportamento), poderá nascer em uma condição superior na próxima vida. Mas também existe outra possibilidade: se você acumulou muitos karmas ruins, é provável que renasça em forma de animal – um destino bem desagradável, já que apenas como humano é possível adquirir conhecimento de si próprio, escapar do ciclo de reencarnação e atingir o moksha (libertação). Para chegar a esse estado, existem três caminhos possíveis: o da caridade e dedicação aos outros; o da veneração aos deuses; e o da meditação e reflexão, traduzido no yoga. Alcançar este patamar superior é o grande objetivo dos praticantes do hinduísmo. 

 

A devoção aos (muitos) deuses

Há quem defenda que, somados, os deuses hinduístas cheguem à casa dos milhões. Mas, apesar disso, esta não é uma religião politeísta. Isso porque todos esses deuses são, na verdade, diferentes aspectos de Brahman, a suprema entidade hindu. Entre essas manifestações do soberano, destacam-se três, que compõem a divina trindade do hinduísmo (também chamada de trimúrti). São elas:
 

Vishnu: o mantedor da existência

Ele surge no mundo real sempre que há algum perigo iminente para a humanidade, em diferentes formas, chamadas de avatares. Controlador supremo, Vishnu é o mantedor da existência: ele sabe tudo o que acontece conosco, nossos íntimos desejos e, assim, dotado de suprema misericórdia, atende a nossos anseios.
 

Brahma: o criador do universo

Segundo a lenda, Vishnu tinha um sono agitado sobre a serpente cósmica Ananta, quando, de seu umbigo, brotou uma leve e graciosa flor de lótus. Desta flor nasce Brahma, que, ao abrir seus olhos, cria todo o universo. Um dia de vida de Brahma corresponde a 4 milhões e 320 mil anos terrenos. Conta o mito que, ao anoitecer, ele adormece, sugando o mundo todo para dentro de si – na manhã seguinte, ao abrir os olhos novamente, ele o recria. A tradição hindu acredita que isso explica o início e o final dos tempos.
 

Shiva: o que cria e destrói

É considerado o deus da destruição e renovação do universo. Vingador colérico, é também um benevolente pastor de almas, que zela pela humanidade. Segundo a lenda, o rio sagrado Ganges era muito violento e, por isso, não poderia descer à Terra porque a destruiria com a força de seu impacto. Então, para ajudar aos homens, Shiva permitiu que o rio caísse primeiro sobre sua cabeça, amortecendo a queda, e depois corresse sobre a Terra.

 

O nascimento dos deuses meninos

Uma lenda conta que a bela Parvati, segunda esposa de Shiva, queria banhar-se, mas não havia guardas para protegê-la. Ela então, a partir de seu próprio suor, criou um menino. Depois, ordenou que a criança não deixasse ninguém passar enquanto ela se banhava. Mas, em pouco tempo, Shiva chegou de uma longa e exaustiva viagem e o menino, obedecendo fielmente às ordens de sua mãe, não permitiu que o poderoso deus passasse. Isto alimentou a fúria de Shiva, que decepou a cabeça do pequeno com seu poderoso trishula (o tridente da destruição e reconstrução).

Parvati, ao perceber o que havia acontecido, ordenou que Shiva devolvesse a vida a seu filho. Dando-se conta da barbaridade cometida, o soberano pegou a cabeça do primeiro animal que encontrara – um filhote de elefante –, devolvendo a vida ao pobre garoto. Assim nasceu Ganesha (ou Ganesh), o deus da sabedoria e do intelecto. Este é um dos contos que explica a cabeça de elefante que ostenta o deus de barriguinha protuberante.

Já seu irmão, Skanda, é fruto do primeiro relacionamento sexual de Shiva e Parvati. O ato não se consumou, pois foi interrompido pelos outros deuses, temerosos de que um ser gerado a partir desta união pudesse ser poderoso demais. Assim, Shiva derrama seu sêmem, e o abrasador líquido, quente demais para ser tocado, passa de um deus para o outro até, finalmente, derramar-se em Ganga, que é fecundada. Com isso, surge Skanda, que viria a se tornar o general dos deuses.

A curiosa opção dos sadhus

Na Índia, no Nepal e em alguns outros países, homens de pele encardida perambulam pelas ruas, vestindo apenas alguns pedaços de pano alaranjados, enrolados desengonçadamente no corpo, ou mesmo sem roupa alguma. Suas faces muitas vezes estão pintadas com cores vívidas ou um branco chapado; os cabelos ensebados, enrolados em dreadlocks, são tão longos quanto as emaranhadas barbas que escondem seus rostos de ossos protuberantes. Estas curiosas criaturas, chamadas sadhus, são homens – e algumas poucas mulheres – que abdicaram de tudo: bens materiais, família e prazeres da vida mundana. A maioria deles vive de doações em cidades e vilarejos; outros vivem completamente isolados, em montanhas e regiões mais remotas. Dedicados ao seu engrandecimento espiritual, os sadhus meditam, fumam haxixe, rezam e praticam yoga, em uma busca constante pelo moksha

A cidade sagrada dos hinduístas

Ruelas estreitas de pedra serpenteiam por um labirinto de construções à beira de um dos rios mais sagrados na cultura hindu, o Ganges (ou Ganga, como é originalmente conhecido). Agarrando-se às narinas, o odor nauseante que resulta da mistura do lixo e das fezes de vacas – animais sagrados, que vagam livremente pela cidade. Barracos escuros e sujos vendem lassi (um tipo de iogurte típico) em potes de barro, o delicioso masala chai (chá feito com condimentos, ervas e leite) e chapati (um pão chato feito somente de farinha, água e sal), entre outros curiosos alimentos e bebidas. Isto é Varanasi, também conhecida como Benares, uma das mais antigas cidades do mundo e a mais sagrada para os hindus. Peregrinos chegam de todas as partes para lavarem seus pecados nas águas sagradas do Ganges. Rituais de vida e morte tomam forma nos ghats (escadarias que levam ao rio), sadhus meditam, crianças pedem esmolas, barbeiros trabalham ao ar livre com suas afiadas navalhas, lavadeiras estendem roupas e enormes panos coloridos, que acabaram de ser lavados na escura e fétida água do rio sagrado. Uma overdose cultural faz parte desta cidade, que, de acordo com a lenda, foi criada pelo próprio Shiva.

 

A controversa sociedade de castas

O hinduísmo fundamenta-se em uma sociedade bastante dividida, onde o casamento por amor não é permitido, muito menos a união de duas pessoas que sejam de castas diferentes. O sistema de castas, por sinal, vem perdendo força com o passar do tempo, mas ainda exerce considerável poder na organização da sociedade, que usa esta divisão para definir o nível de pureza e as funções exercidas pelas pessoas. No sistema hindu, existem muitas subdivisões, mas as quatro principais varnas (castas) são: brahmin, os padres e professores; kshatriya, composta pelos guerreiros; vaishya, dos comerciantes; e shudra, a classe dos servos. Existe ainda um quinto grupo, chamado de pariahs. Completamente marginalizados, os indivíduos dessa categoria recebem o apelido de “os intocáveis” por serem considerados seres impuros. Normalmente, os pariahs exercem trabalhos duros e insalubres, como limpar latrinas.

 

 

A opressora realidade feminina

Vestindo os seus sarees de cores vibrantes, as mulheres dão vida à sociedade hinduísta. Mas nem sempre ter uma filha é motivo de alegria para famílias desta religião. Apesar de proibida, uma antiga tradição continua sendo praticada nos casamentos arranjados: o pagamento de um dote para a família do noivo. Por causa deste costume, muitas famílias, especialmente as mais humildes, devem começar a juntar bens desde o nascimento da criança, para garantir um bom casamento. Em decorrência disso, muitas meninas acabam sendo abandonadas ou até mesmo assassinadas ainda recém-nascidas.

Este não é o único costume que agride a população feminina hindu; todos os meses elas passam por outros apuros. Durante o período menstrual, são consideradas seres impuros e, em regiões mais afastadas, onde as antigas crenças e tradições ainda vigoram fortemente, chegam a ser trancafiadas em celeiros e porões até que o sangue pare de brotar. Na entrada de alguns templos, existem letreiros que proíbem a entrada de mulheres que estão no período menstrual.

E ainda existe a angustiante situação das viúvas. Quando o marido morre, não importa a idade da noiva – existem meninas com apenas 13 anos, ou menos, casadas. A viúva não pode casar-se novamente, nem retornar para sua família. É obrigada a vestir-se apenas com um tecido branco e não pode usar jóias ou pintar-se. Em muitos casos, seus viçosos cachos são raspados e ela acaba tendo que viver em comunidade com outras mulheres que perderam seus maridos. Por causa da miserável vida que são obrigadas a levar, algumas delas se jogam nas chama ardentes que cremam os corpos de seus falecidos maridos.