HIPNOSE COMO ANESTESIA

HIPNOSE COMO ANESTESIA

HIPNOSE COMO ANESTESIA

Desafiando velhos mitos, a hipnose seduz a comunidade científica e ganha espaço nos consultórios médicos e odontológicos

 

Texto • Lívia Filadelfo
 

Que tal sentar na cadeira do dentista sem medo nenhum e, mesmo sem tomar anestesia, não correr o risco de sentir qualquer dor durante o procedimento? "Só em sonho", você pode dizer. Bem, não é exatamente sonho, mas a fórmula está em algo até próximo: um estado alterado de consciência do qual todo mundo já ouviu falar. É, hipnose!

A técnica, quando utilizada por profissionais de saúde devidamente habilitados, pode ser um caminho bastante eficiente para "anestesiar sem anestesiar" – e também para acabar com dores pré e pós procedimentos mais invasivos.

Um estudo de 1977 mostrou que o efeito analgésico da hipnose chega a ser superior ao de medicamentos potentes de combate à dor, como a morfina. Mas como isso funciona?

Com o paciente hipnotizado, o profissional "dirige" seu raciocínio de acordo com a finalidade do tratamento. Se o objetivo for anestesiar, o médico estimula o paciente a evocar uma sensação de anestesia já registrada no cérebro. Pede, por exemplo, para que ele se lembre do que sentiu em certa vez que ficou com a mão dormente. A partir dos comandos do hipnotizador, essa sensação é transferida à região a ser tratada – a boca, por exemplo, nos casos de procedimentos dentários. Atingido o objetivo, o profissional realiza o trabalho. Para manter o paciente hipnotizado, é necessário que ele seja estimulado o tempo todo. Caso contrário, o transe acaba.

Ainda estão em estudo os processos fisiológicos que permitem ao corpo sob hipnose livrar-se da dor. O que se sabe atualmente é que, ciente de que vai se submeter a algum processo doloroso, o indivíduo começa a liberar alguns hormônios, principalmente o cortisol, que produz estresse e acaba esgotando o cérebro. Sob a hipnose, o sistema ativador reticular ascendente (SARA) passa a induzir a produção de serotonina (o hormônio do bem-estar) e beta-endorfinas, criando um antagonismo com o cortisol e eliminando a sensação incômoda da dor.

 

Consciência total

Apesar dos benefícios cientificamente comprovados da hipnose, mitos e crenças, além da ação de charlatões, ainda dificultam a difusão da técnica. Não há contra-indicação, efeitos colaterais, dependência ou agressão ao paciente durante a hipnose. O paciente fica ciente de tudo o que acontece durante a sessão e ouve tudo o que o hipnoterapeuta diz. Nada é feito contra a vontade do paciente, pois ele é quem mantém seu próprio controle. 

“Algumas pessoas têm medo, principalmente, em função dos mitos criados em torno da hipnose. Na primeira consulta, são esclarecidas todas as dúvidas e, em geral, na segunda ou terceira sessão o paciente está confiante no tratamento, pois os efeitos são imediatos”, afirma Comin.

 

Algumas aplicações

DOR NAS COSTAS  a hipnose proporciona relaxamento muscular e analgesia. Passada a fase de dor, é feito o tratamento reabilitacional do paciente combinando outras técnicas como acupuntura, osteopatia e outras terapias manuais.
 

NA CADEIRA DO DENTISTA –sudorese, falta de ar, mãos frias, desmaios, tonturas, dificuldades de relaxar a mandíbula são alguns dos problemas que podem ser eliminados. Além disso, a hipnose também pode substituir a temida anestesia. No Brasil, ela é utilizada de forma regulamentada desde 1966. Mas é necessário que os profissionais sejam devidamente habilitados.
 

PÓS-OPERATÓRIO  além de reduzir as dores, a hipnose diminui a necessidade de analgésicos e proporciona mais força muscular, menos fadiga e uma recuperação muito mais rápida.
 

NA HORA DO PARTO  a mulher se sente mais calma e serena durante o parto normal, harmonizando a contratilidade uterina e muscular, o que ajuda a ter um parto sem dor. Na gravidez ou no pós-parto, a técnica reduz náuseas, vômitos, cólicas, salivação excessiva e alterações da pressão arterial. Também é útil no tratamento dos transtornos menstruais, como tensão pré-menstrual e cólicas.
 

OUTROS PROBLEMAS  ainda estão em teste a eficácia da técnica no tratamento coadjuvante da asma, da síndrome do intestino irritadiço e no combate às náuseas causadas por quimioterapia, além de alergias e cicatrização mais rápida de queimaduras e feridas.

Mitos e verdades

A grande maioria das pessoas é hipnotizável.

VERDADE. Só 5% da população é resistente ao transe hipnótico, enquanto outros 10% são “virtuosos” (atingem um nível além do transe, a etapa sonambúlica, na qual é possível que ocorram alucinações visuais e auditivas).
 

A pessoa pode ser hipnotizada contra a sua vontade.

MENTIRA. Só se hipnotiza uma pessoa com o consentimento dela. O hipnotizador não tem controle sobre o hipnotizado, que não fará ou falará nada que não quiser.
 

O grau de hipnotizabilidade varia com a idade.

VERDADE. O pico de hipnotizabilidade é atingido por volta da adolescência e permanece assim por cerca de 25 anos (ou seja, até por volta dos 40 anos), quando passa a decair.
 

O hipnotizado pode “não voltar” de um transe.

MENTIRA. Porém, quando o transe é confortável e prazeroso, o paciente pode demorar mais para despertar ou partir direto para o sono.
 

As pessoas esquecem tudo o que aconteceu depois da sessão de hipnose.

MENTIRA. A amnésia pós-hipnótica só deve ser feita quando o profissional julgar o procedimento necessário.
 

Hipnose tem a ver com sono e sonambulismo.

MENTIRA. O cérebro de um hipnotizado se assemelha muito mais ao de uma pessoa acordada.
 

Basta simplesmente estar motivado para ser hipnotizado.

MENTIRA. Às vezes, não é possível hipnotizar alguns pacientes, mesmo que estejam altamente motivados.
 

A hipnose performática, de palco, pode ser perigosa.

VERDADE. Transes malconduzidos podem desencadear dor de cabeça, náuseas, vômitos, mal-estar, tonturas, desmaios, hipotensão e, até mesmo, a dissociação da personalidade.

Fonte: Triada.com.br