HIPNOSE NA SALA DE CIRURGIA

HIPNOSE NA SALA DE CIRURGIA

HIPNOSE NA SALA DE CIRURGIA

Para vencer o câncer de mama, Sônia Fuzinatto superou um grande desafio: ser operada em transe, sem anestésicos. Acompanhe a história e entenda como isso funciona

 

Texto • Geisa D'avo

Aos 56 anos, a aposentada Sônia Fuzinatto enfrentou um problema que atinge mais de 45 mil mulheres brasileiras por ano. Quando notou o aparecimento de um nódulo em seu seio, foi submetida a uma mamografia e constatou que estava com um tumor. O procedimento para lidar com o diagnóstico teria sido idêntico ao adotado pelos médicos em casos deste tipo, não fosse um detalhe: “Sou alérgica a muitos medicamentos e a químicas em geral, inclusive a anestésicos. Meu organismo potencializa todas as substâncias. Qualquer gotinha de alguma coisa, para mim, representa uma overdose. Por isso, tive que procurar algum caminho alternativo que permitisse a execução da biópsia“, relata Sônia.

Embora parecesse quase impossível realizar o processo sem a aplicação de anestesia, a aposentada não demorou a encontrar uma solução viável. Adepta da meditação e praticante de exercícios de neurolingüística, Sônia recorreu à hipnose e descobriu que o transe poderia ajudá-la a passar pela intervenção. Após três sessões orientadas pelo dentista e hipnólogo Mohamad Bazzi, já estava pronta para submeter-se à biópsia. Ainda assim, foi necessário procurar por um médico que aceitasse realizar o procedimento.

Nas mãos do mastologista Cláudio Kemp, a aposentada teve a oportunidade que precisava para comprovar a eficiência da hipnose clínica. Induzida ao transe, passou pelo exame sem esboçar qualquer reação de dor. O resultado, no entanto, não foi tão animador – confirmou que o tumor era maligno e que seria necessária a realização de uma cirurgia para a sua remoção.

“Foi aí que iniciamos a segunda fase da preparação com a hipnose”, conta Sônia. “Passei a freqüentar sessões que funcionavam como uma espécie de ensaio para a operação. Nelas, eu fazia treinamentos e exercícios. Em casa, praticava a mentalização, imaginava como seria o momento pós-cirúrgico e a minha vida depois de alguns anos. E é claro que sempre visualizava uma vida saudável”.

 

Preparo para o procedimento

O processo pelo qual passou a aposentada é um velho conhecido da medicina. Antes do surgimento e evolução dos anestésicos, a hipnose era utilizada com o intuito de impedir que pacientes submetidos a cirurgias sentissem dor. Nos dias de hoje, o método é recorrente entre dentistas, que também utilizam o transe para amenizar fatores psicológicos – como o temor de passar por uma consulta odontológica, comum a muitas pessoas. Habituado a realizar a indução com seus pacientes, Bazzi afirma que a técnica funciona nestas situações porque estimula o cérebro e a mente a irem além dos parâmetros usuais.

“Quase todas as pessoas têm medo de ir ao médico ou ao dentista. O medo surge quando eu falo para alguém entrar em um quarto escuro e este alguém não sabe o que tem lá. Á medida que ele ou ela conhecer melhor o quarto, esse nível de medo diminui. O mesmo ocorre durante as sessões de hipnose. Você entra em uma situação desconhecida e, aos poucos, ganha confiança. Com essa confiança, passa a se sentir mais à vontade e menos resistente. Assim, o hipnólogo consegue estimular o seu potencial de cura. Ou seja, o preparo é feito para que o paciente desenvolva o potencial que existe dentro do corpo dele e que ele não sabe usar”, explica o hipnólogo. 

No caso de Sônia, Bazzi realizou um trabalho intenso até ter abertura para induzir e estimular o funcionamento das áreas do cérebro da paciente responsáveis pela sensação de anestesia e segurança. Durante as sessões, para verificar se ela estava apta a passar pela cirurgia, o especialista introduzia uma agulha em uma parte do corpo da aposentada e avaliava a sua percepção e resposta diante do estímulo. Aos poucos, ambos chegaram ao consenso de que a condição ideal havia sido atingida. Embora estivesse segura quanto ao trabalho desenvolvido e quanto à eficiência do método, Sônia preferiu poupar as pessoas próximas: “A minha família só ficou sabendo que eu faria a cirurgia com a hipnose na véspera, porque não queria deixá-los preocupados. Programei tudo primeiro e só depois falei”.

 

 

Durante a cirurgia

Para garantir que a paciente não sentisse dor ao longo da cirurgia, Kemp e Bazzi decidiram associar o transe à eletroacupuntura. Cerca de uma hora antes do início da operação, o hipnólogo começou a preparar a aposentada para o procedimento. “Hoje em dia, o trabalho da sugestão hipnótica é feito pela palavra. Por isso, eu conversei com a paciente o tempo inteiro. Primeiro, estimulei o relaxamento para amenizar o quadro emocional. Depois, a induzi a escolher um outro lugar, onde se sentisse segura. Portanto, foi como se ela estivesse em outro local enquanto a cirurgia acontecia”, relata o especialista. 

Durante a operação, Sônia permaneceu acordada e dialogava com a equipe cirúrgica. Somente quando o mastologista passou a intervir diretamente na região da axila – uma área que exige bastante cuidado por ser o local onde passam todos os nervos do braço e da mão – é que se fez necessária a aplicação de uma quantidade pequena de anestesia, já que a paciente se movimentava. Ainda assim, de acordo com Kemp, a dose de anestésico injetada foi o equivalente à metade do utilizado, normalmente, em uma cirurgia como esta.

As diferenças em relação ao procedimento padrão não pararam por aí, como narra o médico: “Ela quis ser operada em uma condição em que estivesse consciente e não perdesse o contato durante a cirurgia. E foi o que aconteceu. Durante o processo, eu falava para ela tudo o que estava acontecendo. Contei quando conseguimos extrair o nódulo e quando percebemos que o tumor não havia se espalhado. Conforme terminávamos cada procedimento, dávamos as boas notícias. Foi uma experiência nova, porque nessa condição a paciente pôde tomar conhecimento do andamento da ainda durante o ato cirúrgico”.

Embora estivesse desperta, Sônia não registrou todos os momentos da cirurgia, mas lembra do prazer que sentiu quando soube que tudo havia corrido bem. A anestesia geral, que teria sido aplicada em uma paciente sem o histórico alérgico apresentado pela aposentada, dificilmente permitiria que uma paciente tivesse qualquer recordação do momento da intervenção cirúrgica.

 

Resultado final

Após 1h30 de cirurgia, a aposentada fez os curativos e, logo, foi transferida para o quarto. A rapidez com que o processo de recuperação aconteceu surpreendeu os médicos. Isso porque, em geral, pacientes operados por métodos convencionais levam entre 40 minutos e uma hora para recuperar a consciência e os reflexos e, só então, são transferidos para outro local. “Eu saí da sala da cirurgia e, quando cheguei ao quarto, a paciente já estava lá, sentada, bebendo água, rindo e contando como havia sido a cirurgia. Como nós havíamos contado as etapas e o resultado da operação durante a cirurgia, ela sabia conscientemente o que tinha acontecido e falava sobre isso com naturalidade”, descreve Kemp.

Operada em uma noite, Sônia teve alta no dia seguinte pela manhã. O sucesso do procedimento chamou a atenção de muitos profissionais ligados à área médica, mas não causou surpresa à aposentada: “Eu tinha muita certeza de que ia dar certo, mesmo porque era a minha única saída”. 

Ainda assim, de acordo com o hipnólogo, não se deve discutir a substituição dos anestésicos pela hipnose, mas sim a possibilidade de mesclar estes métodos. Isso porque a redução do volume de anestesia aplicada em um paciente e proporcionada pela hipnose gera, conseqüentemente, a diminuição do risco de efeitos colaterais. Além disso, o transe cria condições de metabolismo propícias à recuperação do organismo debilitado. 

“Com o procedimento, você tranqüiliza a pessoa para o ato cirúrgico e, entre outras coisas, reduz a ansiedade, o que gera a diminuição de hormônios como a adrenalina e o cortisol. Se, durante a cirurgia, um paciente chega com uma taxa alta desses hormônios, eles trabalham contra a recuperação. Por isso, quanto mais tranqüilo estiver o paciente, melhor será a sua condição de cicatrização. Além disso, o risco de infecções ou hemorragias é bem menor, afinal, quanto mais calma a pessoa estiver, menor será a pressão arterial e, conseqüentemente, menor o seu sangramento”, afirma Bazzi.

Na prática, a experiência mostrou à equipe médica responsável por este caso que é possível utilizar caminhos diferentes para obter resultados positivos. Por outro lado, trouxe também a noção de que uma prática tão antiga e muitas vezes mal vista pela população – habituada às exibições de hipnose de palco – pode ser aplicada em prol de propósitos maiores. Mas, independente de quais sejam os reflexos deste caso, a principal beneficiada pelo sucesso da hipnose em um procedimento tão delicado, obviamente, foi a própria paciente que, agora, não abre mão do método: “Optei pela hipnose porque não queria sentir dor e meu objetivo foi alcançado. Mesmo depois da cirurgia, até hoje não sei o que é tomar um analgésico. Agora, iniciei um outro tratamento para tentar parar de fumar. A hipnose funciona para qualquer coisa: Basta que seja dirigida por um bom profissional e que a pessoa esteja aberta para aceitá-la”.

 Fonte: Triada.com.br