“LARGUEI TUDO E FUI PARA A ÍNDIA”

“LARGUEI TUDO E FUI PARA A ÍNDIA”

“LARGUEI TUDO E FUI PARA A ÍNDIA”

De executiva de uma multinacional a terapeuta ayurvédica – foi assim, sem medo de seguir seus desejos mais sinceros, que a psicóloga Patrícia Haberkorn encontrou sua verdadeira essência de vida. A seguir, ela mesma conta sua experiência

 

Texto • Patrícia Haberkorn / Fotos • arquivo pessoal

Computadores, planilhas, dados, cobranças. Aquilo tudo, definitivamente, não tinha nada a ver comigo. Trabalhava no setor de recursos humanos de uma grande multinacional, em São Paulo, quando decidi ir à Espanha fazer MBA em direção empresarial. Tive de estudar finanças, contabilidade, entre outros assuntos administrativos. Pirei! Pensava “o que eu estou fazendo aqui?”, sou da área de humanas, me formei em psicologia, mas ao mesmo tempo me consolava, tinha uma carreira em ascensão e mudar totalmente significava começar tudo de novo, só que agora aos 30 anos. Foi difícil concluir o MBA, mas refletir diante deste desconforto e em um país diferente, me fez despertar para um novo caminho de vida.

Então, um dia, após ter concluído os estudos, decidi tirar um tempo para mim. Foi aí que descobri um curso de terapias ayurvédicas, ministrado por indianos, que ficava a uma hora de trem de Barcelona, cidade onde eu estava morando. Não pensei duas vezes. Fui até lá, me inscrevi e, em pouco tempo, estava completamente envolvida por aquela nova realidade repleta de aromas exóticos e fascinantes conhecimentos milenares que mudariam completamente minha vida.

 

Yoga e meditação

Sempre tive uma educação muito liberal, voltada para o aprimoramento do corpo e da mente. Assim, o yoga surgiu em minha vida como mais uma entre as muitas atividades que fiz na juventude. E, para ser sincera, não foi amor à primeira vista. Na época em que comecei, não existiam muitas escolas e modalidades para escolher aquela que tivesse mais a ver com meu perfil. Então, desisti logo.

Anos depois, entrei na faculdade de psicologia mas, como estava muito confusa, resolvi trancar o curso e sair pela estrada. Decidi ir para o sul do Brasil encontrar uma amiga, e levei comigo um livro de yoga que acabara de ganhar. Fiquei apenas uma semana com minha amiga e o resto do tempo, cerca de um mês, morando em Florianópolis, em um quartinho alugado. Como ficava muito sozinha, devorei o livro e comecei a praticar yoga. Fazia yoga em casa, na praia, em qualquer cantinho tranquilo que encontrasse na ilha catarinense. Quando voltei a São Paulo para estudar psicologia, o yoga já tinha entrado em minha vida para nunca mais sair. 
 

“Percebi o quanto estava longe de mim mesma, da minha verdadeira essência. Mal podia imaginar que, dali a pouco tempo, redescobriria tudo isso no ayurveda e na Índia”


Tempos depois, já diretora de RH, senti a necessidade de aprender também a meditação. Tinha lido algumas coisas sobre o assunto e resolvi fazer um curso de meditação transcendental. Assim que comecei a praticar, notei um efeito fantástico. Passei a ter mais concentração e parece que as coisas começaram a fluir em minha vida. Foi a partir desse momento que realmente percebi o quanto estava longe de mim mesma, da minha verdadeira essência. Mal podia imaginar que, dali a pouco tempo, redescobriria tudo isso no ayurveda e na Índia.

 

Impressões da Índia

Entrei para o curso de terapias ayurvédicas na Espanha com o intuito de apenas relaxar, descansar um pouco depois de tanto tempo de estudos, mas vi que podia fazer daquilo que me dava tanto prazer minha profissão. Decidi largar tudo, me demiti e embarquei de vez no meu sonho védico. Meu batismo de fogo não podia ser outro lugar que não a Índia.
 

Patrícia (à direita) durante sua temporada em Puna, na Índia
 

A Índia, como uma amiga me disse muito sabiamente, é o céu e o inferno ao mesmo tempo. E para você alcançar o céu deve, primeiramente, passar pelo inferno. Trata-se de um país de contrastes muito fortes. Essa frase parece estranha quando dita por uma brasileira, mas esse país tem uma realidade muito diferente da nossa, não só quanto às questões sociais ou à pobreza, mas de valores mesmo. Os indianos não exigem tanto para viver, suas casas são de uma simplicidade chocante, até mesmo para os nossos padrões.

Eu, na minha ignorância, pensava que a Índia era um lugar, mesmo com suas misérias de país subdesenvolvido, muito zen, tranquilo, onde todos tivessem uma expressão de paz, andassem devagar vestidos com aquelas roupas coloridas por ruas calmas. Mas esse país é um caos! Muita gente me pede dicas sobre o que levar em uma viagem para a Índia e eu digo a todos: “além de máquina fotográfica, você deve levar um gravador”. Os sons da Índia são algo inexplicável, é buzina, é gente falando alto. Eles buzinam para tudo, até para a vaca! E falam, como falam! Conversam muito e em alto e bom som. 
 

Uma das muitas aulas práticas no centro de estudos e pesquisas ayurvédicas na Índia
 

As pessoas me diziam que o cheiro da Índia é terrível, mas não me pareceu ruim. Os cheiros de que mais me lembro são os dos temperos que, aliás, eu gosto muito. Outra coisa marcante da paisagem é o colorido, seja das roupas das pessoas, seja da arquitetura ou da deslumbrante paisagem natural do país. E foi em meio a tudo isso que fiz um curso de especialização na cidade de Puna, o centro dos estudos de ayurveda. Estagiei em um hospital local, frequentei aulas de terapias ayurvédicas voltadas à beleza, pratiquei yoga e me aprofundei na filosofia védica como um todo. Depois de concluir o curso, fiquei mais um tempo viajando pelo país de Shiva. Só então me senti preparada para começar a nova fase de minha vida aqui no Brasil.
 

Hospital Rasashala, em Puna, onde Patrícia estagiou durante um mês
 

Realização

Hoje, as filosofias indianas fazem parte da minha vida. O yoga é meu equilíbrio, a força de que preciso para manter meu corpo em movimento e minha mente em paz, além de ser fundamental para meu trabalho no Rati, espaço de terapias ayurvédicas que administro e onde aplico tudo o que aprendi.

Além das terapias tradicionais da medicina indiana, como massagens, saunas e ofurôs, temos um professor de yoga que complementa o tratamento e que, a partir do biotipo (dosha) da pessoa, aconselha a vertente que deve ser seguida. Dessa forma, espero levar às pessoas os benefícios desses fascinantes conhecimentos indianos que foram capazes de transformar minha vida – acho que nem preciso dizer – para melhor, muito melhor. 

Fonte: Triada.com.br