MAHATMA GANDHI: A VIDA DO MITO

MAHATMA GANDHI: A VIDA DO MITO

MAHATMA GANDHI: A VIDA DO MITO

Ele liderou revoluções sem o uso da violência, venceu grandes batalhas somente com a força do amor e ensinou para a humanidade que é preciso de pouco para viver bem. Conheça melhor a vida e as lições de Mahatma Gandhi

 

Texto • Carine Portela

Ele nunca ocupou oficialmente um cargo político ou religioso, mas foi um dos líderes mais poderosos do século 20: fez de suas palavras, atos e ensinamentos eficientes armas na luta por um mundo mais pacífico. Com sua figura franzina e amável, o indiano Mahatma Gandhi marcou a história mundial contemporânea como um símbolo de paz.

Em termos concretos, seu maior feito foi liderar a batalha para libertar seu país da dominação britânica, que durou mais de 200 anos. Antes dele, o movimento para a independência do país era marcado por conflitos armados, mas, convencido de que enfrentar o ódio e a violência utilizando os mesmos artifícios equivale a igualar-se ao inimigo, Gandhi propôs um movimento com base na verdade e no amor, seguindo o princípio da não-violência.

Seu poder de influência atingiu em cheio milhões de indianos miseráveis e injustiçados, que encontraram na sua figura a ponta de esperança há muito perdida, passando a venerá-lo e chamá-lo de Mahatma, que significa “grande alma”. Mais que isso: Gandhi inspirou os maiores pacifistas do nosso tempo, criando um meio alternativo de solução de conflitos – o diálogo.

Hoje, a influência de Gandhi está intimamente ligada com a espiritualidade e ultrapassa fronteiras de todo o mundo, fazendo com que pessoas das mais diferentes raças e religiões concordem que esse pequeno homem – de pouco mais de um 1,60 metro de altura – foi um dos maiores apóstolos da paz que a humanidade já conheceu.

“Sua grande mensagem foi a da não-discórdia. A discórdia, por menor que seja, sempre é o início da raiva e o oposto da paz”, diz Wilson Medeiros de Moura, presidente e fundador do Instituto Mahayana, no Rio de Janeiro. “Nenhum outro guru espiritual teve tamanha fixação pela harmonia entre pessoas com idéias e ideais diferentes”, completa Moura.
 

Um garoto comum

Mohandas Karamchand Gandhi nasceu em 2 de outubro de 1869, em Portbandar, na Índia. Teve uma infância sem preocupações, livre da miséria sentida pela maioria das crianças indianas. Filho de Karamchand, primeiro-ministro de um dos muitos estados autônomos da Índia, sempre pôde encarar os ingleses colonizadores como iguais. Era um garoto comum – dedicado aos pais, introspectivo e cumpridor das tradições do hinduísmo.

Aos 13 anos, casou-se com Kasturbai Makanji, da mesma idade. Prestes a completar 18, sentia-se inclinado a estudar medicina, mas foi consenso em sua família que o pequeno Mohandas jamais poderia trabalhar com algo que o obrigasse a provocar dor em outras pessoas, mesmo que fosse para curá-las. Acabou optando, então, pela advocacia.

Depois de cursar a faculdade de Direito em Londres, voltou para a Índia. Quando aceitou a proposta de representar uma empresa hindu na África do Sul, não imaginava as profundas transformações que essa viagem traria para sua vida.

 

Nasce um novo Gandhi

Na África do Sul, Gandhi sentiu, pela primeira vez, o preconceito na pele. Certa vez, em uma viagem de trem, foi convidado a se mudar para o vagão destinado a terceira classe, mesmo tendo em mãos a passagem de primeira classe – tudo por causa de sua cor. Atônito, ele se recusou a atender tal “pedido” e foi expulso do trem. Anos mais tarde, ele lembraria que ali nasceu um novo Gandhi. “Minha não-violência ativa começou naquele dia.”

Com a consciência social despertada, como advogado, passou a ser conhecido por resolver casos difíceis com inigualável ética. Impelido a  lutar pelos direitos de seus compatriotas, que há pouco tinham perdido o direito de voto no país africano, Gandhi decidiu permanecer ali. Fundou o Congresso hindu em 1894 e, por mais de 20 anos, brigou por essa causa. Começava aí uma trajetória de perseguições, espancamentos e ameaças de todos os tipos. Ao mesmo tempo, uma trajetória de glória e sucesso, tendo em vista o histórico projeto de reformas conquistado às custas de seus protestos.

Àquela altura, Mohandas já era uma celebridade em sua terra natal. Quando voltou para lá, ao ver o sofrimento de seu povo ante as regras coloniais britânicas, passou a usar seu poder de influência sugerindo o que, até então, parecia uma idéia utópica: conquistar a independência da Índia por meios não violentos, usando apenas a crença na paz e na harmonia.

Sua luta era baseada em dois conceitos básicos: satyahgraha e ahimsa. O primeiro pode ser traduzido como “desobediência civil”, o que significa que, se uma lei é injusta, não deve ser seguida. Para isso, usa-se a ahimsa, a “não-violência ativa”. Um princípio que rejeita não apenas a violência física, mas também a violência verbal, mental e emocional. Exige, inclusive, um mergulho na espiritualidade e uma vida de auto-sacrifícios, o que inclui, por exemplo, greves de fome.

Revolução dentro de si mesmo

Gandhi acreditava que era impossível tentar transformar a sociedade antes de transformar a si mesmo. Seguindo o hinduísmo, teve uma vida marcada pela fé: cultivava uma alimentação natural, fazia peregrinações e praticava yoga e meditação transcendental. Levantava diariamente às 2 horas da manhã para orar, vivia na pobreza e usava as mesmas roupas (uma tanga e um xale de algodão) todos os dias – possuir apenas aquilo que fosse de extrema necessidade foi uma das suas maiores bandeiras.

Arun Gandhi, neto de Mahatma, conta que, quando tinha 13 anos, jogou fora um toco de lápis que seu avô havia lhe dado. Arun achava que o lápis era muito pequeno e por isso merecia um novo. Gandhi, porém, pediu ao neto que voltasse aonde tinha jogado e procurasse o toco. Em meio à escuridão, Arun vasculhou o local por horas antes de achá-lo. Então, o avô lhe ensinou uma grande lição: descartar um objeto é sinônimo de descartar os recursos finitos do planeta e isso é uma violência contra a própria natureza.

Frequentemente ele afirmava que “todo aquele que possui coisas de que não precisa é um ladrão”, pois, se cada um tomasse da natureza apenas o necessário, não haveria miséria nem desigualdade. Assim, para toda a humanidade, Gandhi ensinou que é preciso prestar atenção a cada pequeno gesto do dia-a-dia para sermos capazes de resolver as grandes questões de violência mundial.

Em 30 de janeiro de 1948, Mahatma foi assassinado a balas por um fundamentalista de sua própria religião, que o considerava um traidor do hiduísmo. Suas últimas palavras foram “oh, Deus!”, mas sua maior mensagem, segundo ele próprio, nunca esteve em palavras: “Minha mensagem é a minha vida.” 
 

 

A Marcha do Sal

Gandhi liderou inúmeras greves e passeatas contra a Inglaterra. Um de seus maiores desafios foi enfrentado quando os ingleses proibiram os indianos de processarem seu próprio sal e impuseram um imposto sobre a compra do produto. Gandhi liderou, então, a famosa Marcha do Sal, em direção ao mar.

Após uma dura viagem de 28 dias, o líder indomável e a multidão que o acompanhava alcançaram o oceano. Lá, Gandhi anunciou um ataque às salinas do governo. Para impedir o ato, policiais golpearam as cabeças dos manifestantes com chicotes que possuíam ferro nas pontas. Nenhum deles ergueu sequer um braço para se defender. Após essa cena brutal, a opinião pública mundial passou a condenar a postura britânica.

Nesse e em outros momentos, Gandhi foi levado para a prisão, mas esse não era um método eficaz para detê-lo. Uma vez que já vivia sem luxos, enxergava o cárcere apenas como uma oportunidade de leitura e reflexão. “Cadeia é cadeia para ladrões; para mim, ela é um templo”, foi uma de suas frases memoráveis.

Todos os seus esforços culminaram na tão sonhada independência da Índia, em 1947, não sem antes ter iniciado sua 15ª greve de fome, um de seus últimos sacrifícios pessoais.

 

 

 

Lições de paz

Refletir sobre os ensinamentos de Mahatma Gandhi pode ser o primeiro passo para a busca e a conquista de um mundo melhor.
 

Amor

Assim como Jesus Cristo, Gandhi defendia que a paz só pode existir quando amamos não só aqueles que nos amam, mas também aqueles que nos odeiam. Essa é a grande lei do amor de Mahatma, sem a qual, para ele, a humanidade nunca poderá encontrar a harmonia universal. 
 

Espiritualidade

Uma das principais características que diferencia Gandhi de outros gurus espirituais – e que o levou para as batalhas políticas – é sua idéia de que não adianta buscarmos a espiritualidade apenas para engrandecimento pessoal. O propósito deve ser sempre ajudar os outros, viver a solidariedade em sua plenitude.
 

Sexo

Aos 36 anos, ainda casado, Gandhi renunciou ao sexo, influenciado pela crença hinduísta que associa o celibato à pureza espiritual. Esse é um de seus ensinamentos mais contraditórios, já que nem mesmo todos os seus discípulos mais próximos aceitaram seguir seus conselhos e renunciar ao sexo para alcançar a iluminação.
 

Meditação

Para meditar é necessário absoluta quietude. Como Mahatma tinha um temperamento agitado (quando tentava ficar parado seu corpo doía e coçava), desenvolveu uma técnica própria para os momentos de oração: tomava um tear e, enquanto tecia, entrava na respiração consciente e repetia mantras.

 

Momentos de uma vida especial

1869 • Nasce no dia 2 de outubro, em Portbandar, Índia.
 

1881 • Casa-se com Kasturba Makanji.
 

1891 • Muda-se para Londres para estudar Direito.
 

1893 • Vai para a África do Sul, exercer a advocacia.
 

1894 • Funda a Organização Hindu, para defender seus compatriotas na África do Sul.
 

1915 • Retorna para a Índia.
 

1930 • Lidera a famosa “Marcha do Sal”, que sensibiliza a opinião pública mundial.
 

1947 • Depois de anos de esforços de Mahatma, a Índia conquista sua liberdade.
 

 

1948 • Em 30 de janeiro é assassinado por um seguidor da sua própria religião.

Fonte: Triada.com.br