MÚSICA PARA RELAXAR E CURAR

MÚSICA PARA RELAXAR E CURAR

MÚSICA PARA RELAXAR E CURAR

Ao transformar a maneira com que lidamos com as emoções, a música ameniza as chamadas doenças psicossomáticas e funciona como um poderoso instrumento de equilíbrio na recuperação da saúde. Saiba mais sobre esse belo efeito

 

Texto • Erica Franquilino

Quando ouve “Meu querido, meu velho, meu amigo”, de Roberto Carlos, Dona Jane lembra do convívio com o pai e das festas em família, em Bauru, interior de São Paulo. As boas lembranças fazem com que o corpo da senhora de 64 anos relaxe, como se remetido a outros tempos, longe das dores causadas pela fibromialgia. Dona Jane não sabe bem o que é musicoterapia, mas admite que a sensação despertada pela canção é reconfortante: mesmo sem se dar conta, ela aproveita um dos muitos benefícios psicológicos e fisiológicos da música sobre a saúde humana.

Nas últimas décadas, centros de pesquisas de todo o mundo se dedicaram a estudar o fenômeno e, hoje, podem afirmar com base em dados científicos que a música realmente pode ser uma grande aliada no tratamento dos mais diversos tipos de doenças, principalmente as psicossomáticas.

Essas doenças são aquelas motivadas por um distúrbio emocional ou um problema psíquico que acaba se convertendo em um comprometimento orgânico. O doente psicossomático sente os sintomas da alteração orgânica, que foi desencadeada, determinada ou agravada por razões emocionais. Asma, fibromialgia, hipertensão e dores crônicas são algumas das disfunções mais comuns.

O terreno da formação dessas doenças é complexo. “Normalmente a pessoa nasce com uma predisposição para doenças desse tipo, que podem ser desenvolvidas ou não, dependendo do histórico dessa pessoa”, diz a musicoterapeuta Inês Campos, especializada em pedagogia curativa. “Quando uma doença psicossomática não é identificada na infância, surge normalmente na puberdade, fruto de um trauma ou alguma questão emocional que não foi bem resolvida”, aponta a terapeuta. Aprisionar sentimentos também pode ocasionar doenças, como ensina a sabedoria popular. Inês corrobora a afirmação e lembra que as emoções “existem para serem trabalhadas”.
 

Identidade musical

Coordenadora dos cursos de graduação, pós-graduação e da clínica de musicoterapia da UniFMU (Faculdades Metropolitanas Unidas, em São Paulo), a musicoterapeuta Maristela Smith afirma que a música é capaz de atuar de forma intensa na atividade cerebral: com seu efeito, são enriquecidos neurotransmissores como a serotonina, que está associada ao estado afetivo das pessoas. O paciente mergulha num processo de autoconhecimento por meio da música, “facilitando a resolução dos problemas”, explica a professora.

Existem duas formas de abordagem musicoterapêutica: a interativa e a receptiva. Na interativa são utilizados instrumentos, corpo, voz e objetos sonoros. O profissional faz uso desses recursos para interagir com o paciente, que também “toca” os instrumentos. Já a abordagem receptiva se faz necessária em situações nas quais não há uma resposta ativa do paciente – que pode estar em coma, por exemplo – ou quando há uma limitação grave de movimentos. Nesse caso, é formulado um CD, criado especialmente para o doente.

Antes de dar início ao tratamento, são analisadas a história e as características sonoras, rítmicas, musicais e corporais de cada paciente. Em linhas gerais, os musicoterapeutas se valem de ferramentas como entrevistas e a textificação musical: a análise das reações dos pacientes a determinados sons. Concluído o levantamento, elabora-se um plano de ação musico-terápico. 

Esse histórico é essencial para traçar a identidade sonoro-musical do paciente, que não é constituída apenas de músicas. “Faz diferença se uma pessoa cresceu ouvindo gritos ou num ambiente mais tranqüilo”, lembra o professor Raul Jaime Brabo, responsável pelo laboratório de musicoterapia da UniFMU.

Paralelamente, o profissional estuda a patologia em questão e entra em contato com os outros profissionais que cuidam do paciente, como fonoaudiólogos, fisioterapeutas e psicólogos. “A musicoterapia não atua sozinha, mas sempre em equipe”, afirma Maristela.

 

 

Ponto de partida

“O trabalho acontece por meio de uma experiência criativa na música, quando a pessoa retoma o contato consigo, podendo reavaliar seus potenciais, limites, desejos, sensações e ideais, abrindo caminhos para a resolução do conflito psíquico que gerou o quadro”, diz o musicoterapeuta Renato Sampaio, presidente do Comitê Latino-Americano de Musicoterapia.

Inês Campos explica que seu trabalho é capaz de ajudar as pessoas a partir do momento em que resgata “algumas coisas da sua vida que foram deixadas para trás e que podem ter ocasionado a doença”, diz, acrescentando que o objetivo é trazer a pessoa “para outra realidade”. São revividos momentos de alegria, prazer e, aos poucos, o doente psicossomático vai reencontrando sensações que havia abandonado.

As sessões são feitas individualmente ou em grupos de no máximo seis pessoas. A opção pelo tratamento individual ou em grupo é feita após a análise inicial do paciente. Quanto à duração do tratamento, não é possível mensurar um período. Pacientes podem ser acompanhados por um, dois, três anos ou, dependendo do quadro, a musicoterapia fará parte da vida dele.
 

Benefícios reais

Basicamente, todos os quadros de doenças psicossomáticas se beneficiam da musicoterapia, devido aos efeitos psicológicos, fisiológicos, mentais, emocionais e cognitivos que a atividade oferece.

Os benefícios são possíveis mesmo quando o paciente apresenta impedimentos sérios, como no caso de um portador de fibromialgia em crise, por exemplo. Aqui, o mais indicado é a musicoterapia receptiva: o paciente senta-se numa cadeira confortável, com fone de ouvido, para ouvir um programa musical pensado especificamente para ele. A identificação com as músicas vai levando, aos poucos, ao relaxamento muscular. “Ele vai ficando mais calmo, equilibrado, enquanto a música vai agindo nos neurotransmissores. Isso ocasiona estágios de melhora”, detalha Maristela.

Renato Sampaio cita um estudo a respeito da dor crônica. O terapeuta fez parte de uma equipe multidisciplinar que pesquisava disfunções temporomandibulares (um quadro que gera, entre outros problemas, uma dor grave na região da mandíbula e pescoço, podendo se alastrar para outras regiões do corpo). “Alguns dos pacientes que atendi possuíam crises de dor há mais de 10 anos, o que ocasionava prejuízos graves em suas atividades diárias”, conta.

O atendimento com musicoterapia foi realizado num programa de seis sessões semanais individuais, nas quais o paciente ouvia alguns estímulos sonoros, além de aprender técnicas de relaxamento. Segundo Sampaio, todos os pacientes participantes do programa apresentaram melhoras consideráveis, como alívio ou eliminação da dor, melhora do sono, diminuição da ansiedade e, especialmente, melhora na expressão de sentimentos e desejos.

Cada emoção, um som

Relacionando alguns exemplos de abordagem musical a tipos de temperamentos, a musicoterapeuta Inês Campos sugere os tratamentos mais indicados para a personalidade de cada um.

O eufórico: aquela pessoa que está sempre “lá em cima” deve começar a trabalhar a partir dos sons agudos, passando para os mais graves, em busca do equilíbrio.

O deprimido: para ele, o caminho é justamente o inverso. Pode-se partir dos sons mais graves, até chegar às escalas mais suaves.

O melancólico: para esse tipo de temperamento, é ideal a terapia com instrumentos de corda, que trabalham a região do colo e do peito, com o intuito de “liberar” emoções.

O colérico: instrumentos de percussão podem ajudar a extravasar a ira.

O sanguíneo: aquele que quer fazer tudo ao mesmo tempo encontra seu equilíbrio com instrumentos de sopro, como uma flauta de madeira, por exemplo.

O fleumático: para pessoas com pouca iniciativa, o indicado é começar pelo piano.

  Fonte: Triada.com.br