O SÁBIO ESPÍRITO EMMANUEL

O SÁBIO ESPÍRITO EMMANUEL

O SÁBIO ESPÍRITO EMMANUEL

Conheça as muitas vidas e um pouco da obra de um dos espíritos mais venerados da doutrina, famoso por suas mensagens transmitidas por meio da mediunidade de Chico Xavier

 

Texto • Sérgio Pereira Couto
 

A atividade mediúnica de Chico Xavier ganhou grande projeção entre os espíritas brasileiros em 1931 quando, pela primeira vez, um de seus mentores se manifestou em uma reunião de seu Centro Espírita. Começava, assim, uma obra registrada em mais de 400 livros e que marcaria seu trabalho para sempre.

Conhecido como um espírito de alta luminosidade, Emmanuel (assim mesmo grafado, com dois emes) foi descrito pelo médium como possuidor de “traços fisionômicos de homem idoso, que me fez sentir como se minha alma fosse envolvida na suavidade de sua presença. Mas o que mais me impressionava era que a generosa entidade se fazia visível para mim, dentro de reflexos luminosos que tinham a forma de uma cruz”.

Estamos no início da década de 30 e a entidade, que não se identificou a Chico logo de início, declarou que pretendia trabalhar com o médium por muito tempo e lhe passou duas orientações básicas para o trabalho que deveria desempenhar, reforçando que fora de qualquer uma delas, ele falharia em sua missão. Segue a transcrição da primeira conversa travada e narrada posteriormente por Chico Xavier. 
 

— Está você realmente disposto a trabalhar na mediunidade com Jesus?

— Sim, se os bons espíritos não me abandonarem... – respondeu o médium.

— Não será você desamparado – disse-lhe Emmanuel – mas para isso é preciso que você trabalhe, estude e se esforce na prática do bem.

— E o senhor acha que eu estou em condições de aceitar o compromisso? – tornou Chico Xavier.

— Perfeitamente, desde que você procure respeitar os três pontos básicos para o serviço... Porque o protetor se calasse o rapaz perguntou:

— Qual é o primeiro?

A resposta veio firme:

— Disciplina.

— E o segundo?

— Disciplina.

— E o terceiro?

— Disciplina.

A segunda orientação de Emmanuel para o médium foi descrita por ele da seguinte maneira:
 

"Lembro-me de que em um dos primeiros contatos comigo, ele me preveniu que pretendia trabalhar ao meu lado, por tempo longo, mas que eu deveria, acima de tudo, procurar os ensinamentos de Jesus e as lições de Allan Kardec e, disse mais, que, se um dia, ele, Emmanuel, algo me aconselhasse que não estivesse de acordo com as palavras de Jesus e de Kardec, que eu devia permanecer com Jesus e Kardec, procurando esquecê-lo."
 

Não é preciso dizer que as condições foram aceitas e Chico Xavier, na época um modesto funcionário público do Ministério da Agricultura, teve disciplina suficiente para nunca misturar sua atividade profissional com o exercício da mediunidade. Desde essa época, o médium já demonstrava possuir uma saúde precária e nunca lançou mão de uma licença-saúde ou algo do gênero.

O bondoso guia sempre se manteve fiel aos ensinamentos de Jesus e Alan Kardec. Emmanuel teria feito parte da chamada Falange do Espírito da Verdade, grupo de espíritos que teria trazido até nós o Cristianismo revivido, ou seja, a doutrina Espírita.

Seus livros dão um panorama do nascimento do cristianismo, em especial Paulo e EstevãoAve Cristo e Renúncia, livros estes que são baseados em fatos históricos reais. Outros trabalhos, como Caminho, verdade e vidaPão nossoVinha de luz eFonte viva são considerados obras que possuem uma interpretação superior dos ensinamentos de Jesus, o que valeu a Emmanuel a denominação de quinto evangelista.

 

Outras obras de destaque deste famoso espírito são A caminho da luz, um relato da história da civilização de acordo com os ensinamentos do espiritismo, e Emmanuel, livro composto de dissertações sobre ciência, religião e filosofia.

 

O início em Roma

Logo nos primeiros contatos, Chico questionou Emmanuel sobre sua identificação. Começava assim um período em que a entidade apresentaria um pouco de seu passado e de suas vidas anteriores, posteriormente registradas em dois livros: Há dois mil anos e 50 anos depois.

Suas histórias terminaram por fascinar milhares de leitores e apresentaram-no como tendo encarnado diversas vezes na Terra na figura de personalidades bastante conhecidas, entre elas um senador romano chamado Públio Lêntulus Sura, “descendente da orgulhosa ‘gens Cornelia’”. Foi bisavô de Públio Lêntulus Cornélius, político romano, nascido no período terminal da república e contemporâneo de figuras históricas como Julio César, Cícero e Catão.

De acordo com a obra Guerra Catilinária, do historiador romano Caius Salústiu Crispo, Públio era aliado político de Lucius Sergius Catilina, nome que colocou Roma em polvorosa após a tentativa de tomada de poder. Como era comum aos romanos daquela época, a personalidade do senador era tida como muito orgulhosa e forte: vive por Roma e luta por ela, não admite a corrupção e mostra-se possuidor de um caráter íntegro. Sofreu durante anos com a suspeita de ter sido traído pela esposa, Lívia, a quem verdadeiramente idolatrava e para a qual compunha versos como:

Alma gêmea da minha alma
Flor de luz da minha vida
Sublime estrela caída
Das belezas da amplidão (...)
És meu tesouro infinito
Juro-te eterna aliança
Porque eu sou tua esperança
Como és todo o meu amor!

O espírito define sua lembrança desses momentos no seguinte trecho do seu livroHá dois mil anos: “Para mim essas recordações têm sido muito suaves, mas também muito amargas. Suaves pela rememoração das lembranças amigas, mas profundamente dolorosas, considerando o meu coração empedernido, que não soube aproveitar o minuto radioso que soara no relógio da minha vida de espírita, há dois mil anos”.

Dois pontos da vida de Públio são interessantes. O primeiro é a oportunidade que este teve de se encontrar pessoalmente com Jesus, quando se tornou a única autoridade que teria registrado uma descrição perfeita do Redentor por meio de uma carta que foi publicada em numerosas línguas. O senador teria ainda encontrado-o, e solicitado auxílio para a cura de sua filha Flávia, supostamente com lepra. Nessa época, foram-lhe apresentadas duas escolhas: tornar-se servo Deste ou do mundo. Ele terminou por escolher a segunda opção.

O segundo ponto a se notar são as circunstâncias de sua morte, ocorrida em 79 d.C., em Pompeia. Ele foi uma das vítimas das lavas impiedosas do vulcão Vesúvio. Públio já estava cego e totalmente voltado aos princípios do Cristianismo.

O recomeço em Éfeso

Na etapa seguinte de suas encarnações, vamos encontrá-lo no ano 131, cenário do romance 50 anos depois. O senador renasce em Éfeso, uma das grandes cidades dos gregos jônicos na Ásia. Seu nome agora é Nestório e ele é um homem muito culto que na infância teve a oportunidade de ouvir as pregações do apóstolo João, responsável por seus primeiros contatos com a doutrina cristã.

Porém, seu destino foi duro: tornou-se escravo quando atingiu a idade adulta e foi levado para servir em Roma. Por 45 anos mostrou-se inconformado com sua situação: acaba separado de seu filho, Ciro, que também fora escravizado, mas torna a encontrá-lo algum tempo depois durante uma pregação nas catacumbas, conduzida por ele mesmo.

Novamente, o destino mostra-se ingrato: Nestório é preso e, depois de um tempo, condenado à morte por permanecer fiel à palavra de Jesus, em um dos muitos períodos de perseguição aos cristãos. É conduzido ao Coliseu onde, com Ciro e mais um grupo de outros cristãos, é atado a postes por cordas persas com elos de bronze.

Já magro, quase esquelético, tem o corpo varado por flechas envenenadas enquanto canta com os olhos voltados para o mundo espiritual que o aguarda. Uma vez desencarnado foi recebido por sua esposa anterior, Lívia: “Foi quando um vulto de anjo e ou de mulher caminhou para ele, estendendo-lhe as mãos carinhosas e translúcidas... O mensageiro do céu ajoelhara-se junto ao corpo ensanguentado e afagou-lhe os cabelos, beijando-o suavemente. O antigo escravo experimentou a carícia daquele ósculo divino e seu espírito cansado e enfraquecido adormeceu de leve, como se fora uma criança”, relata.

 

Outra vez em Roma

O ano é 217 e o espírito de Públio reencarna novamente. Desta vez, a personalidade assumida é a de um patrício romano chamado Quinto Varro, um homem apaixonado pelos ideais de liberdade. Pouco mudou em Roma, novamente sua cidade natal: suas classes privilegiadas mantinham a multidão imersa em miséria e ignorância, motivo pelo qual, mais uma vez, volta-se para o Cristianismo e sente transforma-se pouco a pouco em um fervoroso seguidor de Jesus.

O pensamento do Redentor paira acima da Terra, e Varro tem a nítida noção, apesar dos esforços da aristocracia de sua cidade, de que um novo mundo começa a se formar das cinzas do velho, que renasce como uma Fênix com outra roupagem.

Mas as coisas degringolam quando Varro se torna vítima de uma conspiração que deseja tomar sua vida durante uma viagem marítima. Para escapar, ele toma a identidade de um velho pregador de Lyon chamado Corvino. Nasce assim o Irmão Corvino, o moço que, mais tarde, assume a profissão de jardineiro.

Essa convivência pacífica não lhe adianta, pois o destino inexorável mais uma vez vai ao seu encontro e Varro é condenado, por suas ligações cristãs, à decapitação, pena que é suspensa após o terceiro golpe do machado e é trocada por uma lenta agonia e conseqüente morte no cárcere.

Sua encarnação seguinte acontece 11 anos depois. Novamente em Roma, agora se chama Quinto Celso, um garoto do qual pouco se divulga a não ser que era iniciado na leitura e que se revelou dono de grande memória e discernimento. Celso era declaradamente cristão e terminou sua vida amarrado a um poste em um circo, onde foi untado com resinas e ateado fogo. Sua vida não passou dos 14 anos e o martírio se tornou constante em suas passagens terrenas. Uma das mensagens de Emmanuel, na obra Leis de amor, fala sobre bendizer as “mãos que nos ferem”:

“Bendigamos as mãos que nos ferem. É imperioso, porém, que nos dediquemos a fazer algo a fim de que se renovem para o entendimento e a prática do bem, sob a inspiração dos bons exemplos que lhes pudermos ofertar”.

Desta vez, em Portugal

Sua mais recente encarnação impressiona até mesmo um leigo. Seu início se dá em 18 de outubro de 1517 no vilarejo de Sanfins, na região conhecida como Entre Douro e Minho, em Portugal, durante o reinado de Dom Manuel I, o Venturoso. Seu nome entrou para a história brasileira como um dos mais importantes desse tempo: Manoel da Nóbrega, o padre missionário dedicado e batalhador, companheiro de José de Anchieta.

Essa revelação aconteceu numa sessão espírita realizada em 1949. Parte da mensagem que foi psicografada dizia:

“O trabalho de cristianização, irradiado sob novos aspectos do Brasil, não é novidade para nós. Eu havia abandonado o corpo físico em dolorosos compromissos no século 15, na Península, onde nos devotávamos ao ‘crê ou morre’, quando compreendi a grandeza do País que nos acolhe agora. Tinha meu espírito entediado de mandar e querer sem o Cristo. As experiências do dinheiro e da autoridade me haviam deixado à alma em profunda exaustão. Quinze séculos haviam decorrido sem que eu pudesse imolar-me por amor do Cordeiro Divino, como o fizera, um dia, em Roma, a companheira do coração. Vi a floresta perder-se de vista e o patrimônio extenso entregue ao desperdício, exigindo o retorno à humanidade civilizada e, entendendo as dificuldades do silvícola relegado à própria sorte. Nos azares e aventuras da terra dadivosa que parecia sem fim, aceitei a sotaina, de novo, e por Padre Nóbrega conheci de perto as angústias dos simples e as aflições dos degredados. Intentava o sacrifício pessoal para esquecer o fastígio mundano e o desencanto de mim mesmo, todavia, quis o senhor que, desde então, o serviço americano e, muito particularmente, o serviço ao Brasil não me saísse do coração. A tarefa evangelizadora continua”.

Dono de uma inteligência acima da média, entrou para a Universidade de Salamanca, na Espanha, com apenas 17 anos. Quatro anos depois, frequenta aulas de direito canônico e filosofia na faculdade de Cânones dessa instituição, onde recebe a láurea doutoral em 14 de junho de 1541. No Brasil, foi o padre Manuel quem escolheu o local onde seria a futura cidade de São Paulo, fundada em 25 de janeiro de 1554. Uma data que, para o padre, tinha um significado simbólico, uma vez que era o dia em que Paulo de Tarso havia sido convertido ao Cristianismo.

Em sua obra intitulada Nóbrega e Anchieta em São Paulo de Piratininga, o historiador paulista Tito Lívio Ferreira assim descreve os últimos dias do padre, bem-visto por todos:

“Padre Manoel da Nóbrega fundara o Colégio do Rio de Janeiro. Dirige-o com o entusiasmo de sempre. Aos 16 de outubro de 1570, visita amigos e principais moradores. Despede-se de todos, porque está de partida para a sua Pátria. Os amigos estranham-lhe os gestos. Perguntam-lhe para onde vai. Ele aponta para o Céu”.

E no dia seguinte já não consegue mais se levantar da cama e recebe a extrema unção. No dia de seu aniversário, em 18 de outubro de 1570, quando completava 53 anos de vida e 21 de serviços ao Brasil, desencarnou pela última vez. De acordo com registros, suas últimas palavras foram:

“Eu vos dou graças, meu Deus, Fortaleza minha, refúgio meu, que marcastes de antemão este dia para a minha morte, e me destes a perseverança na minha religião até esta hora”.

Vale a pena lembrar uma curiosidade divulgada pela Federação Espírita do Paraná. A Entidade encontrou registros de que o deputado Freitas Nobre, já falecido, teria declarado a um programa da TV Tupi de São Paulo, na noite de 27 de julho de 1971, que ao escrever um livro sobre Anchieta, teve a oportunidade de encontrar e fotografar uma assinatura de Manuel da Nóbrega que se apresentava com um E inicial, “E. Manuel”. 
 

 

Histórias de vida

A imensa obra ditada por Emmanuel a Chico Xavier traz uma análise de todos os ensinamentos apresentados pela doutrina espírita. Entre os principais títulos publicados destacam-se:

– Há dois mil anos
– 50 anos depois
– Caminho, verdade e vida
– Pão nosso
– Vinha de luz
– Fonte viva
–  Emmanuel
– A caminho da luz
– Ave Cristo

 Fonte: Triada.com.br