Os Mistérios Ocultos no Chimarrão

Os Mistérios Ocultos no Chimarrão

Era de tal ordem o respeito e a veneração que os índios devotavam à "Erva de Tupá" que, à semelhança do que faziam os antigos egípcios, com seu Livro dos Mortos, os INCAS faziam depositar alguns ramos de erva-mate junto aos seus mortos, como forma de "abrir-lhes" os caminhos para o mundo do além-túmulo. Esse fato ficou comprovado pelas descobertas feitas nos túmulos de ANCON, perto de Lima, no Peru.

Das bocas dos índios os catequisadores jesuítas ouviram espantosas narrativas sobre o mate, que vararam os tempos. Não era raro se ouvir falar de indígenas que desfaleciam quando não tomavam o chimarrão. Ouvia-se dizer também que, no silêncio das mateadas, os índios "conversavam" com seus ancestrais.

Que mistérios possuía aquela infusão instituída por um Deus pagão? Que tipo de droga era aquela que os nativos ingeriam, com tal respeito, como se estivessem comungando com a própria divindade? Devemos ter em mente que, para a sociedade dos brancos, o índio surge e se apresenta como um símbolo de atraso e de baixo padrão de vida regional.

Sob este ângulo de visão, na falta de uma resposta no "modelo europeu", e pelo medo de defrontarem-se com uma realidade diferente (e quem sabe?) maior do que a sua, os padres foram levados a condenar o uso da erva-mate como "erva-do-diabo". Eram grandes as superstições sobre o mate e se difundiam tão rápidas quanto as lendas do caá-porapelos rincões deste imenso Brasil. Era época de se falar em feitiços, bruxarias e fogueiras.

Quem primeiro suscitou a verdadeira contenda sobre a "inquietação moral" causada pela bebida foi o Procurador Don Alonso de la Madrid. Em fevereiro de 1596 dirigiu-se ao governador crioulo da Província do Paraguai, Don Fernando Árias de Saavedra (Hernandárias), exigindo a suspensão do uso da erva-mate, bem como de sua produção, já bastante divulgada na época. Denunciava que o "vício" e o "mau costume" já se haviam estendido ao espanhóis, suas mulheres e filhos. Requeria textualmente: "se estancasse el beneficio de la hierba por los grandes danos que traia el uso de beberia". E seguia "porque por tomaria, no oyen misa ni sermones, quebrantan los ayunos y dan mal ejemplo á los hijos que siguem á los padres".

Era tamanha a força dessa tradição que nem as excomunhões e penas dos juizes eclesiásticos, com suas "reprensiones y ejemplos de los predicadores" ou "penitencias de confesores" foram capazes de eliminá-la.

O Governador Diego Marín Negrón, por sua vez, escreveu ao rei de Espanha, por sugestão de Hernandárias,denunciando o seguinte: "Hay en esta gobernación, generalmente en hombres y mujeres un vicio abominable y sucio, que es tomar algunas veces al dia la yerba com gran cantidad de agua caliente, con grandisimo dano de lo espiritual y temporal, porque quita totalmente la frecuencia del Santisimo Sacramento y hace a los hombres holgazanes, que es la total ruiva de la tierra y como es tan general, temo que no la podrán quitar, si Dios no lo hace".

Um de seus maiores perseguidores, o padre Diego Torres, denunciou, formalmente, sua origem demoníaca, fazendo condenar seu uso em todas as missões jesuíticas. Eram os ventos da inquisição soprando nas plagas pampeanas.

O nosso "cachimbo da paz" tornou-se, por força da ignorância dos conquistadores, um instrumento de discórdia, causador de muito sofrimento para o povo nativo.

Seguidamente os índios eram punidos e castigados por desobediência às proibições estabelecidas. Fora instituída, como último recurso, a "excomunhão" dos que mateavam. Tentavam incutir a idéia de que ANHANGÁ (Deus do mal na mitologia índia) havia enfeitiçado os ervais, transformando a erva em poderoso e letal veneno. Optando o homem, geralmente, por aniquilar aquilo que lhe é desconhecido, ao invés de estudá-lo, analisá-lo e incorporá-lo ao seu conhecimento, desencadeou através da Igreja Católica, uma verdadeira guerra contra o uso da erva-mate.

Essa contenda atravessou importantes e preciosas décadas da nossa história. Na realidade, o que existia era o propósito deliberado, como nos afirma Temístocles Linhares, de destruir o autóctone, os costumes do povo e defender o sistema colonial espanhol.

Por seu lado, os índios sempre encontraram um modo de burlar a vigilância ou desacreditar a versão jesuítica. Através da orientação de seus sábios pagés, que conheciam o valor do mate e sabiam como lidar com o seu povo, sempre encontravam uma forma de criar um "contra-veneno". Se ANHANGÁ envenenara os ervais, era fácil desvencilhar-se desse feitiço: bastava o cevador (aquele que prepara o mate) não tomar a primeira ceiva da infusão. Ela deveria ser cuspida fora por cima do ombro esquerdo. Desta forma o cevador podia, tranqüilamente, tomar o mate seguinte, sem medo do envenenamento.

É por esse motivo, que até os nossos dias, principalmente na região das missões, não se toma o primeiro mate, cuspindo fora os seus goles. (grifo do Cohen)

É também daí que se originou o ditado: "o primeiro mate é dos pintos", tendo em vista que, ao cuspi-lo, os pintos do terreiro acodem, rapidamente, para catarem as partículas da erva que saem na primeira cevada. (grifo do Cohen)

Também vem desse tempo a tradição do "dono da casa" ou do "cevador" tomar o primeiro mate, numa demonstração aos demais parceiros da roda, de que o chimarrão está desprovido de qualquer "veneno" que lhes possa causar algum mal. (grifo do Cohen)

Tantas quantas fossem as proibições criadas, outras tantas formas eram encontradas para não respeitá-las.

O nosso índio preferia morrer a viver sem o seu companheiro chimarrão.