PARÁBOLA DA LAGARTA VOADORA

PARÁBOLA DA LAGARTA VOADORA

PARÁBOLA DA LAGARTA VOADORA

Uma parábola sobre as lagartas e sua intrigante metamorfose em belíssimas borboletas ajuda a compreender a essência da Cabala. Vá em frente, aprenda e inspire-se

 

Texto • Gilad Shadmon


 

Era uma vez uma comunidade de lagartas que viviam em uma velha amoreira. Elas nasciam de ovos, comiam folhas e terminavam suas vidas como casulos. Sabiam que eram originadas de ovos porque viam seus irmãos nascerem assim, mas nunca souberam de onde vinham os ovos. A maioria delas nem mesmo se preocupava com isso: estavam atarefadas demais procurando as folhas mais verdes à sua volta.

As lagartas tinham medo de apenas duas coisas: vento forte e pássaros predadores. Um vento forte poderia sacudir as folhas da árvore, e uma lagarta  inexperiente, que ainda não tivesse aprendido a se segurar firmemente, poderia ser lançada ao ar sem nenhum aviso até se estatelar no solo – lagartas que sobreviviam ao trauma e, com o resto de suas forças, conseguiam voltar para a comunidade pelas costas de lagartas voadoras. Pássaros predadores apareciam do nada. Você poderia estar comendo uma folha suculenta com seu melhor amigo e, de repente, um bico gigante o arrastar para o céu. Então você saberia que nunca mais o veria.
 

Uma lagarta diferente

Avri nasceu de um ovo cinzento, o que era um sinal de que se meteria em confusões. A maior parte das lagartas que nascem de ovos cinzentos nunca chega à fase de casulo. Por isso, desde que nasceu, Avri só falava em uma coisa: chegar ao topo da árvore. Todas as lagartas avisavam-no para tomar cuidado, mas ele não queria ouvir e, por duas semanas e meia, escalou galho por galho.

Quando atingiu a folha mais alta, viu uma lagarta gorda e cinza sendo pega por um pássaro. Ficou tão apavorado que não conseguiu se manter lá. Já no chão, tentou entender o que tinha acontecido. Apesar de a queda ter durado poucos segundos, viu tantas coisas bonitas que o medo desapareceu.  Primeiro, viu lagartas que estavam ocupadas comendo. Ele as chamou, mas nenhuma ouviu. Perto dali, viu belas criaturas voando entre as folhas. Como já tinha ouvido falar delas, deduziu que seriam as borboletas.

Depois de uma longa jornada, Avri conseguiu voltar para a comunidade das lagartas, mas não se importava mais com as folhas verdes nem com o topo da árvore. Decidiu que queria se tornar uma borboleta. “Alguma coisa se soltou dentro da sua cabeça durante a queda. Deixe-nos em paz e vá se transformar em um casulo”, disseram a ele. Embora isso fosse uma maldição do mundo das lagartas, um sujeito como Avri não levaria a sério essa provocação. Começou, então, a estudar o fenômeno de transformação em casulo. Lembrou-se de que as borboletas se pareciam muito com as lagartas. Seria possível que elas fossem apenas lagartas com asas? 
Avri grudou-se a uma lagarta velha, implorando para que ela voltasse caso se tornasse uma borboleta após virar casulo. “Deixe de bobagem”, foi a resposta. “Nós dois sabemos que o casulo é o fim”. Dias depois ela foi encontrada em uma cápsula cinzenta e desapareceu dentro dela. Avri esperou dias e noites ao lado do casulo. E foi no momento em que as dúvidas começaram a crescer que aconteceu...
 

A metamorfose

Uma rachadura se formou e uma pequena cabeça preta surgiu de lá. Pouco depois, a cápsula sacudiu com força, se partiu ao meio e um par de asas coloridas, iguais àquelas que ele tinha visto durante a queda, esparramou-se gloriosamente para os lados, flutuando no ar e carregando uma delgada borboleta para o céu azul. Avri estava maravilhado e quis gritar “Olhem, eu tinha razão!”, mas sabia que ninguém iria ouvir.

Sentiu, então, uma grande fraqueza. Os longos dias de espera, a experiência poderosa e a solidão haviam deixado sua marca. Levantou suas mãos para cima, como se esperasse ajuda, e mergulhou em uma profunda indiferença. Quando acordou, estava no ar. Olhou para trás e viu olhos que pareciam familiares. Sim, era a velha lagarta. “Mantive minha promessa”, cantou a velha. “Agora, nós estamos voando”. 

Bem perto de onde aterrissaram havia uma borboleta pondo ovos. “Então é assim que se faz?”, perguntou Avri. Ela sorriu: “Que privilégio eu tenho, falar com uma lagarta! Eu não falo com uma lagarta desde que deixei de ser uma”. “Por que você não convida todas as lagartas para dar uma volta acima da árvore?, Avri perguntou. “Isso é o que nós mais queríamos, mas não podemos”, ela respondeu. “Então como foi que vocês me pegaram?”, insistiu a lagarta cinza. “Porque você queria”, ela respondeu, antes de sair voando. Ela ainda acrescentou: “Você levantou as mãos porque acreditou que iria conseguir, e assim eu pude segurar você”.

Avri teve várias horas de vôo depois daquele dia. Também conheceu outras borboletas e, de cada uma, aprendeu alguma coisa sobre o mundo dos seres com asas. Aos poucos, começou a sentir uma crescente piedade por suas irmãs lagartas. “Se pelo menos elas soubessem o que estão perdendo...”, lamentava. “Tenho certeza de que posso explicar isso a elas”, decidiu, com coragem para encarar o novo desafio: ensinar às lagartas sobre o mundo das borboletas. 
 

Hora de ir

Quando chegou a vez de Avri se tornar um casulo, ele sabia que havia cumprido sua meta. Deixou mapas detalhados da estrutura da árvore, instruções sobre como chegar ao topo e até um mapa de zonas de alimentação recomendadas. Na verdade, a maior parte das lagartas passou a usar os mapas para encontrar as zonas de folhas verdes, poucas os usaram para encontrar o caminho para o topo e somente algumas começaram a se perguntar: “Onde ele encontrou soluções tão simples para problemas tão complexos? Nós  podemos entrar em contato com a mesma fonte de conhecimento?”

Avri foi a primeira de uma dinastia de lagartas voadoras. Cada uma que nasceu depois atualizou e renovou os desenhos de suas antecessoras. Elas descreveram o mundo das borboletas para aquelas que viriam depois delas, especialmente para despertar seu desejo e aumentar sua necessidade de levantar as mãos em fé completa. Elas sabiam que as borboletas amam as lagartas mais do que as lagartas podem imaginar. Sabiam que viria o dia em que todas as lagartas voariam com a ajuda das borboletas e que então haveria completo contentamento em ambos os mundos,  o das lagartas e o das borboletas. Elas esperaram por esse dia e fizeram tudo o que podiam para que ele chegasse.

 

GILAD SHADMON é aluno do grupo Bnei Baruch de Israel. A versão completa de seu texto pode ser lida no site www.kabbalah.info/brazilkab.