REENCARNAÇÃO: O FIM E O RECOMEÇO

REENCARNAÇÃO: O FIM E O RECOMEÇO

REENCARNAÇÃO: O FIM E O RECOMEÇO

Mais do que um caminho para o crescimento espiritual, a reencarnação é também um consolo para quem não sabe lidar com a dor da perda. Saiba como esse princípio é visto pela doutrina espírita e também por outras religiões

 

Texto • Paula Bianca de Oliveira
 


 

A ideia de reencarnação sempre esteve presente na história da humanidade. Desde as primeiras civilizações orientais até a Grécia Antiga, podem ser encontrados inúmeros relatos que mencionam essa crença. No século 6 a.C., por exemplo, o notório poeta e filósofo grego Orfeu já proclamava a imortalidade da alma. Os principais elementos de sua doutrina, o orfismo, diziam:

“No homem há um princípio divino, uma alma que caiu em um corpo para corrigir uma imperfeição. (...) Essa alma não só preexiste ao corpo como também sobrevive a ele, estando destinada a reencarnar em corpos sucessivos até que consiga depurar-se das imperfeições e dos erros que a fazem voltar ao mundo.”

No espiritismo, a reencarnação tem contornos bem semelhantes aos ditados pelo orfismo. Visto como um exemplo da bondade e da justiça de Deus, o ato de se reencarnar está entre os princípios básicos da religião espírita. “O mecanismo das múltiplas existências permite-nos o entendimento da evolução do espírito e da justiça divina”, afirma Antônio César Perri de Carvalho, diretor da Federação Espírita Brasileira (FEB).

Allan Kardec, em O livro dos espíritos, relata que a reencarnação é mesmo uma lei divina, na qual o espírito encontra subsídios para se transformar, por meio de sucessivas existências terrestres. “Em uma só vida, nós não poderíamos adquirir todo o conhecimento e passar por todas as vivências necessárias. No decorrer das nossas reencarnações, vamos exercitando vivências diferentes, que contribuirão para formar um espírito realmente evoluído e de luz, que é o objetivo maior”, explica Maria de Cássia Anselmo, diretora da Federação Espírita do Estado de São Paulo (FEESP).

 

“O que é melhor para seu espírito é que determina como será sua reencarnação. Se é de uma situação de sofrimento que se vai tirar as maiores lições, então é ali que se vai reencarnar”, diz a diretora da FEESP. Ela assegura que não existem regras, mas que uma coisa é certa: “Você sempre vai nascer no local certo, com o corpo certo, na família certa, na hora certa. Tudo de maneira que te leve a uma possibilidade maior de crescimento, dentro de suas necessidades espirituais”.

Uma escolha maior

De acordo com o espiritismo, o mecanismo da reencarnação está sujeito às chamadas “leis superiores” e não apenas à vontade do espírito. Se uma pessoa nasce em uma família cheia de problemas, por exemplo, sabe-se que existe um por quê. “Quando alguém nasce em uma condição desfavorável, existe sempre uma razão maior. A pessoa deve entender que essa situação lhe foi apresentada para que ela aprenda a valorizar a família, por exemplo; ou aprenda a amar algum indivíduo dentro dessa família com o qual a pessoa não se afinava”, ilustra Maria de Cássia.

Como a reencarnação tem como objetivo dar uma nova oportunidade de evolução para cada espírito, vai depender da pessoa saber aproveitar determinada situação – seja ela de alegria ou de dor.

Hora de aprender


 

Compreende-se que as reencarnações sempre acontecem de acordo com o aprendizado e a conduta desenvolvida na encarnação anterior. Esse conjunto é que dá subsídios para que sua próxima encarnação seja “programada” pelas tais “forças maiores” – sempre almejando o que seja melhor para seu espírito.

Mas vale lembrar: nem sempre aquilo que você pensa ser o melhor o é de fato. “Nascer novamente em uma família desequilibrada, aos olhos da maioria, pode parecer um castigo, mas não é. É uma nova oportunidade de aprendizagem”, exemplifica Maria de Cássia.

É interessante observar, também, que nem tudo está nas mãos das leis divinas. Quando se trata de alguém que já alcançou elevados níveis de consciência e conhecimento espiritual, é possível que ele nasça de novo de acordo com suas vontades. “Por meio de sua própria evolução, o espírito alcança um entendimento maior de sua condição e de sua meta entre nós. Isso lhe dá condições de escolher como será sua reencarnação”, fala Antônio César.

Causa e efeito

Sempre que se fala em leis superiores, vontades divinas ou força maior, está se falando também de um outro conceito bastante utilizado no espiritismo: a lei de causa e efeito. Assim como na física, esse princípio apresenta-se de forma lógica e precisa. “Devemos entender que Deus não castiga. Mas tudo aquilo que você desarmoniza, você vai ter que harmonizar novamente”, acredita Maria de Cássia.

Esse “acerto de contas” não será necessariamente em uma próxima encarnação. Ele vai depender de sua condição espiritual. Mas, de toda a forma, foi deixada aberta uma lacuna que, um dia, vai ter que ser fechada. “O espírito é criado de forma simples e sem conhecimento sobre suas experiências reencarnatórias. Paulatinamente, vai adquirindo experiências, boas e negativas, surgindo aí eventuais necessidades de ajustes perante a lei divina, e o conseqüente progresso espiritual”, descreve o diretor da FEB.

 

De acordo com a lei de causa e efeito, quando se tem uma atitude mais amorosa, mais branda e mais pacífica diante do mundo, esse ajuste de contas pode ser revisto. “Se eu tivesse que harmonizar uma situação futura, mas começasse desde já a ter outro comportamento, certamente seriam feitos reajustes espirituais em minha trajetória, modificando o cenário final”, explica a diretora da FEESP.

 

O destino quem faz é você

Muitas vezes chamada de lei do karma (por influência das religiões orientais), a lei de causa e efeito costuma ser muito analisada por escritores e personalidades ligadas ao espiritismo. Acompanhe um trecho do livro Contos e pontos, psicografado por Chico Xavier e ditado pelo espírito Irmão X, que ilustra bem este conceito: 
 

João trabalhava há muitos anos como operário até que, certo dia, mexendo em uma máquina pesada, perdeu seu dedo mindinho. Todos ao redor ficaram prostrados, pois ele era uma pessoa muito boa, que colaborava e ajudava a todos. Revoltados, seus colegas não acreditavam no que tinha acontecido, até que um deles questionou a Deus: como um homem tão bom pôde sofrer um acidente desses? (...) Foi quando um homem muito sábio e espiritualizado surgiu entre eles e disse:

– Na verdade, João deveria ter perdido todo o braço mas, por ser um homem muito bom, ele conseguiu reduzir tudo aquilo que ele teria que passar, e perdeu só um dedo.

O que Irmão X nos mostra com essa passagem é que, sim, em alguns aspectos, todos nós tivemos uma programação a ser vivida, algo que fora acordado previamente, na espiritualidade. Mas cada pessoa é que comanda a própria vida. “Não existe destino, existe a lei de causa e efeito. O destino quem faz é você. Do contrário, seríamos marionetes e nada poderia ser mudado. Mas todos nós temos o livre-arbítrio e podemos melhorar ou piorar nossa encarnação”, conclui Maria de Cássia.

Esquecimento do passado

Imagine ter que carregar com você a culpa de todas as outras vidas já vividas. Ou, pense, em uma vida passada ter amado imensamente uma pessoa, com a qual você jamais saberia ficar sem. Difícil? Pois é justamente para que nossos espíritos não tenham que suportar tamanha carga emocional que nos esquecemos das vidas passadas, iniciando cada nova encarnação com uma memória zerada. “É uma clemência divina”, exclama Maria de Cássia. “O esquecimento do passado é isso: nós começamos do zero”, complementa.

“O nascimento de uma criança em uma família é um bom exemplo dessa necessidade de esquecimento. A mãe cuida com amor do filho, o pai luta pela sua sobrevivência. Então, mesmo que tenha existido alguma diferença lá atrás, a convivência, o cuidado dos pais e o amor que a criança desenvolve com a família permitem que haja uma reestruturação na trajetória espiritual dessas pessoas, que antes era problemática”, analisa a diretora da FEESP.

Quando o fim é apenas o começo


 

A história do espiritismo é permeada por exemplos de pessoas que mudaram suas vidas ao compreenderem os princípios da imortalidade da alma. Um caso relevante mostra que, certa vez, Allan Kardec recebera uma carta de um suicida em potencial que dizia: “Esse livro salvou minha vida”. O remetente referia-se à obra O livro dos espíritos como elemento determinante para que a idéia de suicídio fosse banida.

“O espiritismo, na verdade, é o consolador prometido por Jesus. Ele realmente vem dizer: no fim, todos seremos felizes – porque esse é o objetivo de Deus”, sustenta Maria de Cássia. Com o entendimento de que a vida não acaba, que ela continua na espiritualidade e que, depois, pode haver uma reencarnação no plano material, é dada a todos a chance de recomeçar, o que promove crescimento espiritual.

 

A evolução do espírito: esse é o grande sentido da reencarnação. Ou, como lembrou Antônio César, sobre a frase lapidar colocada no túmulo de Allan Kardec: “Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre – tal é a Lei”.

 

O nascer de novo em outras religiões

Além do espiritismo, inúmeras outras religiões também acreditam na reencarnação – cada uma à sua maneira. Conheça algumas delas.
 

HINDUÍSMO – A alma nasce em um corpo, morre e, depois, reencarna em outro corpo. A reencarnação em uma vida melhor, pior ou mesmo no corpo de um animal depende do karma (valor que a alma recebe pelos atos bons ou ruins que praticou).
 

BUDISMO – Não ensina a reencarnação, mas sim o renascimento, porque não acredita que exista uma alma, ou seja, um eu permanente. Crêem na continuidade de um processo, no qual vidas sucessivas estão conectadas umas às outras por meio de causas e condições. Esse fluxo não ocorre apenas depois da morte, mas está presente constantemente em nossas vidas. 
 

JAINISMO – A alma humana reencarna continuamente, podendo vir como homem, animal ou planta, e vai gradativamente se depurando. Somente quando se está livre das ações mundanas é que a alma recupera a leveza natural, flutuando para o topo do Universo e vivendo em êxtase (nirvana).
 

TAOÍSMO – Acredita que o universo existencial é a soma de três mundos, e que nele existem seis caminhos (das divindades, demônios, homens, animais, almas esfomeadas e prisões terrestres). A transmigração consiste em percorrer por um dos seis caminhos após a morte física, ascendendo ou decaindo conforme seu desenvolvimento espiritual, sua trajetória no mundo.
 

SEICHO-NO-IE – Resultado da conversão de diferentes religiões, como o Cristianismo e o Budismo, aceita a doutrina kardecista para explicar a reencarnação, definindo-a como forma de evolução espiritual.
 

UMBANDA – Influenciada pelo pensamento kardecista, entende a reencarnação como fator imprescindível para o aperfeiçoamento moral e intelectual do espírito. Diz a máxima de Xangô: “Quem deve paga, quem merece recebe”. 
 

JUDAÍSMO – Quando uma alma não completa nesta vida a missão que lhe foi dada, ela deve retornar. Após três reencarnações, se a pessoa não consegue se retificar, a alma ficará errante e isolada neste mundo até reencarnar no reino animal, vegetal ou mineral. De modo geral, o judaísmo não crê que a vida acabe depois da morte; a vida segue, mas no plano da alma.

Fonte: Triada.com.br