THANGKAS: BUDISMO EM ARTE

THANGKAS: BUDISMO EM ARTE

Com cores e alegorias vibrantes, histórias e ensinamentos embutidos, as thangkas encantam o espírito de incrédulos e devotos. Conheça esta rica e complexa pintura tibetana

 

Texto  Isis Gabriel / Fotos  Raúl Meliendrez
 

Conta-se que Buda emanava um brilho próprio que ultrapassava as percepções humanas. Por isso, os artistas não conseguiam retratá-lo olhando-o diretamente – somente através de seu reflexo espelhado no rio. Certo dia, um rei decidiu presentear o monarca de uma terra distante com uma imagem de Buda. Ao receber o pedido para se deixar retratar, Buda Shakyamuni aceitou o convite com a condição de que os símbolos dos doze elos da existência condicionada e os ensinamentos de como todos os fenômenos surgem na mente, além de uma descrição dos ensinamentos, fossem incluídos abaixo de sua imagem. E assim foi feito. O rei presenteado, ao ver tal obra, ficou tocado por sua beleza e pediu para que lhe explicassem, em detalhes, os símbolos e representações da figura. Depois de ouvir, inspirado, ele começou a meditar. Mais tarde, repleto de alegria, convidou monges para difundirem a doutrina de Buda, o chamado dharma, em suas terras.

Lenda ou não, o fato é que as pinturas sagradas transportadas por monges itinerantes foram um importante instrumento na transmissão dos ensinamentos budistas para povos de terras e diferentes culturas.
 

Lições em forma de arte

As pinturas tibetanas representam iconograficamente a filosofia budista. As imagens, as proporções e o simbolismo das obras condensam antigos textos sagrados e falam diretamente às pessoas, por meio de uma linguagem não-verbal. Mais que isso: as pinturas transmitem valores fundamentais para o budismo, como a interpretação individual dos ensinamentos e a meditação.

A arte da pintura tibetana pode ser vista nos murais de templos e monastérios budistas, em manuscritos iluminados e nas chamadas thangkas. Imagens sacras coloridas em telas de algodão, seda ou linho engomado, as thangkas se popularizaram graças ao fato de poderem ser facilmente enroladas e transportadas.

Durante muito tempo, esse tipo de trabalho foi praticado apenas em torno dos grandes monastérios, afinal, antes de qualquer coisa, realizar uma thangka é um ato religioso. Assim, monges passavam as técnicas somente para monges. Com o passar dos anos, porém, tudo mudou. Hoje, encontram-se thangkas em lojas e até mesmo à venda nas ruas de países asiáticos, onde o budismo é largamente praticado.
 

Susana Uribarri, professora da técnica: “Cada sessão de pintura é um novo ritual”


Geralmente feitas em posição vertical, as thangkas trazem imagens de budas, mestres, bodhisattvas e deidades. São expostas em templos e altares domésticos e utilizadas em cerimoniais e festivais públicos – nesses casos, possuem grandes dimensões e são colocadas em muros de monastérios e na encosta de colinas.

Mas, ao contrário do que acontece com a arte católica, não há adoração das imagens budistas. Os devotos utilizam as thangkas como fonte de inspiração para práticas meditativas e para depreender os ensinamentos de Buda. Representações de Buda e bodhisattvas conferem bênçãos e inspiram a meditação. Imagens de mestres e gurus lembram os ensinamentos. Deidades (yi-dams) despertam para a iniciação de práticas de visualização. Já as figuras iradas (dharmapalas), de cor escura e aspecto terrível, invocam proteção.
 

 

Raízes sagradas

A arte sagrada chegou ao Tibete por volta do século 7, quando o Rei do Dharma Srong-btsan-sgam-Po, que oficializou o budismo no reino, casou-se com princesas budistas do Nepal e da China. As moças levaram consigo estátuas e relíquias budistas, e não havia lugares adequados para guardá-los. O rei, então, decidiu construir os templos de Jo-khang e Ra-mo-che para armazenar tais objetos sagrados. A partir dali, patrocinados pelo monarca e sob influências, principalmente, da Índia, China e Nepal, artistas tibetanos começaram a estudar e praticar a arte budista.

Rito cheio de significado

Por seguirem descrições de textos sagrados, as representações iconográficas tibetanas cumprem regras severas para toda a composição das pinturas, inclusive das thangkas.

Tradicionalmente, a preparação de uma thangka é feita em meio a um cerimonial – deve-se meditar, purificar os materiais de uso e o ambiente de trabalho, fazer oferendas e entoar mantras. “Quando o artista começa a fazer um trabalho, o ambiente deve ser modificado dentro do conceito de vacuidade – que não é o vazio e sim a união de tudo com tudo e de onde vêm todas as coisas”, explica a professora e artista plástica budista Susana Uribarri.

Susana, que é argentina e está no Brasil desde 1981, diz que todo esse ritual serve para não contaminar o trabalho com o ego mundano do artista. “Cada sessão de pintura é um novo ritual. Depois que termino, eu ofereço o mérito, porque é para benefício de todos os seres. Tudo que eu fiz ali não foi para mostrar como sou uma boa artista, e sim para que as pessoas que estejam contemplando aquele trabalho consigam alguma forma de benefício”.
 

O desenho da imagem principal é feito em papel, no qual traçam-se os contornos de acordo com padrões preestabelecidos. Depois de transferida a imagem, inicia-se a pintura em tela de tecido, papel ou couro animal


Depois do ritual inicial, vem a preparação da tela. De tecido, papel ou couro de animal, ela é untada na parte da frente e de trás, com uma mistura de cola animal e giz branco. Em seguida, ela é esticada em uma moldura para secar. Uma vez seca, a tela deve ser polida com uma pedra, pedaço de vidro ou uma concha, para que fique completamente lisa e com aspecto acetinado.

O desenho da figura principal (Buda, mestres ou qualquer uma das divindades do panteão do budismo tibetano) não é feito diretamente na tela. Em um papel, traçam-se os contornos e esquemas da figura de acordo com regras canônicas. Tais regras, complexas e rígidas, determinam toda a proporção do desenho.

Uma medida-chave em qualquer thangka é a da cabeça da divindade representada. É a partir disso que partem todas as outras proporções do corpo. Para isso, utiliza-se uma espécie de régua denominada tik-ses. Os tik-ses estipulam a proporção de 12x12 para cabeças masculinas e 10x12 para as femininas. “É um número simbólico que indica que a cabeça masculina é mais quadradinha e a feminina, mais oval”, diz a artista plástica e restauradora Muriella Colajacomo Málaga, budista italiana que atualmente reside em São Paulo, onde ministra cursos de pintura de thangkas. 
 

Sem assinatura

“Pensar em pintar de um jeito que simplesmente vai ficar bonito, neste tipo de trabalho, não tem cabimento. A thangka não é uma invenção do artista, todos os elementos são expressões da divindade”, explica a artista plástica argentina. Por tudo isso, a thangka não leva a assinatura do pintor. O artista pode, no máximo, colocar a data e o nome atrás da tela.

Métodos minuciosos

Depois de traçada a imagem no papel, é hora de transferi-la para a tela. Para isso, o método mais utilizado é a técnica de impressão pontilhada, o tsags-par, em que os contornos da figura no papel são perfurados por um alfinete e, depois, despeja-se carvão moído para sensibilizar a tela. Com a figura principal desenhada, é hora de escolher a paisagem em que a divindade vai ficar. “O cenário pode ser feito à mão livre, não existe rigor. É a imaginação do artista que determina a cenografia da thangka”, explica Susana.

A paisagem geralmente representa ou o paraíso imaginado, no qual as deidades se encontram, ou um lugar onde os pintores gostariam que esses seres iluminados estivessem. “Eu, por exemplo, fiz uma obra com iconografia brasileira. Tem bananeira, coqueiro, boto cor-de-rosa e vitória-régia, porque minha ideia era imaginar que essa deidade estava aqui no Brasil”, fala Susana.
 

A pintura dos olhos da divindade é feita somente no final do processo: “é um momento muito delicado e sagrado”


A pintura da imagem central também obedece a padrões rígidos. As cores devem estabelecer uma tensão de direções opostas, percebida no choque entre duas cores extremas e na convergência de duas harmônicas. Cada cor de divindade tem uma simbologia específica.

A cor azul representa o espaço; a verde, o ar; a branca, a água; a vermelha, o fogo e a amarela, a terra. As tintas utilizadas tradicionalmente são feitas com pigmentos minerais e vegetais e, às vezes, com ouro e prata. O azul é extraído do lápis-lazuli, o preto da fuligem de lamparinas e o verde do musgo. Os pincéis, por sua vez, são galhos ocos de pinheiro com cerdas de pêlos de coelho ou cabra. É claro que tais escolhas dependem da disponibilidade dos produtos. “Como muitos desses materiais não são comuns no Brasil, permite-se o uso de pincéis industrializados, tintas acrílicas, aquarelas ou mesmo de pigmentos naturais brasileiros”, pondera Muriella.
 

 

Intercâmbio artístico-cultural 

Especula-se que, especialmente nos séculos 15 e 16, houve uma intensa troca artística-cultural entre Oriente e Ocidente, coincidentemente na época áurea da arte europeia e tibetana. “Você percebe em ambos os movimentos artísticos a leveza das figuras, as formas arredondadas e suaves. Até mesmo os gestos das imagens sacras cristãs e budistas tibetanas, o posicionamento de mãos e a postura são bem parecidos”, compara a artista plástica Muriella Colajacomo.

 

Quando a divindade ganha vida

A primeira parte da imagem a ser pintada deve ser o cenário e a última, a cabeça da divindade. “A pintura do rosto da deidade é um momento muito delicado e sagrado, especialmente os olhos”, diz Susana. É quando a deidade está quase se manifestando. Por isso, esse momento exige muita concentração. O 15º e o 30º dias de cada mês são sagrados para os tibetanos. É geralmente nesses dias que o pintor se dedica ao trabalho de execução da face da divindade: no 15º ele desenha sua face e, no 30º dia, ele a colore.
 

As thangkas seguem padrões rígidos e complexos (esquerda). Divindades iradas são representadas para invocar proteção (direita)


Uma vez terminada a pintura, a thangka é, então, montada em moldura de seda brocada, frequentemente com símbolos auspiciosos e em cores de significados específicos. Depois, coloca-se um tecido atrás da thangka e, na frente, costura-se uma tela de seda presa somente na parte superior para que possa ser levantada. Para finalizar, varetas de madeira ou bambu são colocadas nas extremidades da tela, para facilitar o ato de enrolar e desenrolar a thangka. Atenção: sempre enrole essa pintura sagrada de baixo para cima – o contrário é considerado uma profanação.
 

Ao alcance de todos

Ao contrário do que se pode pensar, para aprender a técnica de pintura das thangkas não é preciso ser artista plástico. E nem mesmo budista. “Um restaurador, por exemplo, precisa conhecer muito sobre a técnica e sobre os materiais utilizados para restaurar uma thangka original tibetana”, diz a professora Susana Uribarri. O aluno que ingressa em um curso de pintura tibetana recebe todo subsídio e direcionamento para execução desse trabalho, inclusive cadernos e apostilas com proporções áureas.

 Fonte: Triada.com.br