YOGA PARA A CRIANÇADA

YOGA PARA A CRIANÇADA

YOGA PARA A CRIANÇADA

Crianças a partir de 4 anos já podem praticar yoga – e, com isso, ganhar concentração, tranquilidade, saúde e um bom desenvolvimento físico. Descubra que história é essa e, de quebra, confira boas posturas para praticar com os pequenos

 

Texto • Diego Alencar

Em vez de paschimottanasana, “o sanduíche sentado”. O setubandhasana vira a “postura da ponte levadiça”. Já o marjariasana, para sincronizar o movimento e a respiração, transforma-se na “postura do gato” e termina com um sonoro miado. Os movimentos são milenares e os benefícios, largamente difundidos. Mas vai explicar para uma turminha de crianças entre 4 e 11 anos que o que eles estão fazendo não é apenas uma deliciosa brincadeira.

Músicas, figuras divertidas, aulas temáticas, livros que estimulam a criatividade e a imaginação. É assim que o yoga é ensinado e praticado por meninos e meninas. Antes da aula da “postura da árvore” (vrikshasana), por exemplo, os mestres pedem aos alunos que tragam recortes, imagens e livros sobre árvores. Isso estimula a criatividade, desenvolve a concentração e, consequentemente, ajuda na realização dos movimentos.

“Toda criança apresenta boa postura e capacidade de respirar profundamente”, afirma Simone Gonçalves, professora do Centro de Yoga da Praia do Canto e da academia Pro Fitness, ambas em Vitória (ES). Ela acredita que a prática do yoga é a melhor forma de preservar tais características: “As crianças são yogues natos”.

A comprovação da tese veio dentro de sua própria casa. Anna Gonçalves Miranda, 6 anos, é sua filha e aluna. Adora fazer as posições da borboleta, do peixe e da árvore, “que é a mais difícil”, explica a menina. “Comecei um pouquinho errado, mas agora sei fazer todas”, vangloria-se. Para a mãe e professora, os resultados são visíveis. “Anna melhorou sua flexibilidade e percepção de postura. Está menos insegura e mais autoconfiante”, diz orgulhosa. 

 

Saudável dos pés à cabeça

Os benefícios vão além. Mais que fortalecimento de memória e de concentração, há melhoria nos sistemas cardiorrespiratório, digestivo, do trato intestinal e do trato urinário. Também maior controle da coordenação psicomotora e neuromotora e fortalecimento de todo o sistema circulatório – incluindo o sanguíneo, o linfático, o plasmático e o sinovial.

Porém, esses resultados vem a longo prazo. “Mas ao final de cada aula, no relaxamento, sempre vemos carinhas felizes e tranquilas”. Conta Silvia Ferraz, que ministra aulas na Conexão Corpo e Mente (RJ). Ela também desenvolve, junto a dois professores, trabalho voluntário na favela da Rocinha, em duas creches da Associação Creche Viva.

Mas cuidado, pois nem todas as linhas de yoga são indicadas às crianças. É o que explica Claudio Duarte, presidente da Associação Brasileira de Yoga. Segundo ele, o único ramo indicado aos pequenos (“por uma questão de precaução”) é o Hatha Yoga – prática calma, que favorece a introspecção e utiliza exercícios de postura.

Claudio ainda explica que devem ser evitadas vertentes mais vigorosas do Hatha Yoga – como o Power Yoga –, que jamais devem ser praticadas por crianças. “Somente por adultos. E com mais de cinco anos de prática”, completa. 

 

Nenhuma criança sai perdendo

Outra questão fundamental é evitar a competição. A prática deve ser a mais divertida possível e jamais o mestre deve permitir comparações das habilidades entre as crianças. O importante é desenvolver o autoconhecimento, para que entendam melhor suas virtudes e carências. Assim, podem aproveitar o que têm de bom e procurar melhorar – sem cobranças externas – suas dificuldades.

E diferentemente de outras atividades indicadas às crianças – como futebol, natação, vôlei e judô – o yoga permite que meninos e meninas pratiquem juntos e com desempenhos parecidos. O que influencia não é a questão do sexo, e sim o potencial de cada um. “Às vezes, as meninas são mais dispostas. Em outras ocasiões, são os meninos que têm mais vontade de praticar”, observa Claudio.

Com tantos pontos positivos, Simone acredita que a falta de conhecimento é a única barreira para que o yoga para crianças não seja ensinado além das academias. “Aqui em Vitória e em outras cidades – ao contrário de grandes centros, como Rio e São Paulo – nenhuma escola de ensino básico e médio tem o yoga como prática extracurricular”.  Questão de tempo para essa arte milenar. 
 

 

Hatha Yoga: censura livre

Todos os professores entrevistados concordam: não há contra-indicação.

Tanto Silvia quanto Simone afirmam que qualquer criança pode praticar o Hatha Yoga, mesmo as que necessitem de algum cuidado especial. Só é necessário que as aulas sejam ministradas por professores capacitados.

Crianças autistas ou portadoras da síndrome de Down também podem e devem praticar – no entanto, em alguns casos, recomenda-se que as aulas sejam individuais.

Para Claudio, o ideal é que as crianças iniciem a prática do yoga aos sete anos de idade.

Ele afirma que, geralmente, as recomendações são as normais: cuidados com a coluna e estrutura óssea e  movimentos sempre suaves.

Aos mestres e professores, Cláudio ainda dá alguns conselhos: nunca deve ser dado nenhum exercício forçado ou pesado, sempre trabalhar mais com o lado lúdico e pedagógico, dirigir as aulas com serenidade e tranquilidade e não abusar da rigidez.

 

Asanas para a criançada

Conheça, passo a passo, alguns dos asanas que a professora Simone ensina aos seus “pequenos yogues”. E confira, nas fotos, como sua filha Anna aprendeu tudo direitinho.
 

Navasana
a "postura do balanço do barco"

Principal benefícios: massageia a coluna dorsal e estimula o sistema nervoso.

Dica da professora: “imagine que você está dentro de um barco, que balança com as ondas e com o vento fresco. Deixe o sol esquentar o seu rosto”.

Como fazer: deite-se de costas no chão e abrace os joelhos na direção do peito. Relaxe a cabeça e balance o corpo, suavemente, de um lado para o outro. Sinta-o em contato com o chão, massageando as costas.

 

Vrikshasana
a "postura da árvore"
 

Principal benefício: proporciona estabilidade e nos ensina permanecer fortes e firmes, sem tensão.

Dica da professora: “permaneça firme e forte como uma árvore, repleta de beleza e equilíbrio”.

Como fazer: fique bem ereto com pés unidos e firmes no chão (pise com toda a planta do pé). Olhe para a frente com naturalidade, fixando-se em um ponto qualquer. Após total firmeza e atenção, eleve um dos pés apoiando a sola na coxa da perna-base (perna fixa). Alcance o ponto mais alto e confortável. Ao encontrar o ponto de equilíbrio, inspire, levante os braços, toque as palmas da mão levantado-as frente ao peito. Faça algumas respirações e desfaça a postura devagar. Repita o exercício para o outro lado.

 

Marjariasana
a "postura do gato”

Principal benefício: relaxa pescoço, ombros e coluna.

Dica da professora: “você já viu um gato acordando? Ele se espreguiça para cima e para baixo, deixando as costas bem fortes e flexíveis”.

Como fazer: fique de joelhos e apóie as mãos no chão. Alinhe-as com os ombros (pulsos embaixo dos ombros); joelhos na direção do quadril. Deixe o peito do pé relaxado no chão. A coluna deve permanecer reta e o olhar, na direção dos dedos da mão. Ao soltar o ar, empurre as costas para cima e encoste o queixo no peito, olhando para o umbigo; ao inspirar, solte as costas, deixando a lombar bem relaxada. Olhe para cima, na direção do topo da cabeça. Os lábios devem ficar afastados, facilitando o alongamento do pescoço. Repita o exercício de três a quatro vezes e, quando soltar o ar, tente miar como um gato.

 

Paschimottanasana
a "postura do sanduíche sentado”

Principal benefício: é um movimento simples com profundo efeito calmante.

Dica da professora: “meus braços e minhas pernas são pedaços de pão que quero juntar para guardar o recheio, que é minha saborosa respiração”.

Como fazer: sente-se no chão com as pernas esticadas e unidas à frente; deixe a coluna bem alinhada. Inspire levantando os braços para cima da cabeça, tocando suavemente as palmas; expire e flexione o tronco para a frente, até alcançar a parte mais próxima dos pés ou os próprios pés. Respire suavemente e vá sentindo seu corpo relaxando e crescendo. Volte inspirando profundamente, elevando os braços novamente para cima da cabeça, e expire, apoiando as mãos ao lado do corpo.

Fonte: Triada.com.br